domingo, 26 de junho de 2011

Mulheres negras e desemprego, por Miriam Leitão

DESEMPREGO: Dados mostram barreiras contra mulheres negras
Publicado no Portal do Geledés - Sábado, 25 Junho 2011 11:31
 
Por Mirian Leitão

É para se comemorar a taxa de desemprego em 6,4%, a menor para o mês de maio desde 2002, mas quando olhamos com atenção os dados do IBGE chegamos à conclusão de que o mercado de trabalho brasileiro continua bastante desigual, discriminando mulheres, negros e jovens. Os números falam por si.

Enquanto a desocupação está em 6,8% entre as mulheres brancas, por exemplo, acima da média geral e da taxa registrada entre os homens com essa mesma cor de pele (4,2%), ela salta para 9,5% entre as mulheres pretas ou negras, segundo os dados do IBGE divulgados hoje.

Mas esses números podem ser ainda mais cruéis, quando olhamos para o desemprego entre as jovens negras de 18 a 24 anos de idade: subiu para 20% em maio - em abril, estava em 19,6%, mais do que o triplo da taxa média atual. No caso das mulheres brancas com a mesma faixa etária, está em 12,6%. Como se vê, as jovens negras têm bastante dificuldade para encontrar uma vaga de trabalho nesse exigente e contraditório mercado brasileiro.

Olhando as tabelas do IBGE, notamos que o desemprego, como sempre, continua baixo entre os homens (4,9%) e mais alto entre as brasileiras (8%). Mais elevado também entre os que estudaram mais, por incrível que pareça.

E apesar de muitos empresários reclamarem da falta de mão de obra no Brasil, os números que mostram a desocupação entre os jovens indicam que há um exército de desempregados entre 18 a 24 anos, deixado de lado por falta de qualificação ou experiência. Entre eles, o desemprego está em 13,5%, um pouco abaixo da registrada em abril (15%), mas bem acima da média.

sábado, 28 de maio de 2011

O kit contra a homofobia e a educação

O kit homofobia e a educação

por Reinaldo Bulgarelli, 15 de janeiro de 2011 (para Portal Guia do ABC)

Uma pesquisa divulgada em 2009 me chamou a atenção e venho considerando seus resultados no meu trabalho. A matéria, na Revista Nova Escola, da Editora Abril (http://revistaescola.abril.com.br/avulsas/225-emdia.shtml), dizia o seguinte:
Diversidade não é um tema bem-vindo entre alunos, pais, professores e diretores. Esse é um dos apontamentos do Estudo sobre Ações Discriminatórias no Âmbito Escolar, realizado no primeiro semestre de 2009 pela Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe), em convênio com o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep). Idade, etnia, orientação sexual e de local de origem, entre outras características, incomodam a maior parte do público analisado em 500 escolas públicas de todo o país (veja o gráfico à esquerda). Além de a abrangência da intolerância assustar, é preocupante encontrar as necessidades especiais como o principal alvo de repulsa, ainda mais com a crescente inclusão de alunos com algum tipo de deficiência nas escolas regulares. Nessa categoria, o índice geral de preconceito é de 96,5% e alcança 96,8% dos alunos e 87,4% dos docentes.”
A pesquisa mostra que 87,3% têm preconceitos contra homossexuais: “A distância em relação a pessoas homossexuais foi a que apresentou o maior valor para o índice percentual de distância social, com 72%, seguido da distância em relação a pessoas portadoras de deficiência mental (70,9%), ciganos (70,4%), portadores de deficiência física (61,8%), índios (61,6%), moradores da periferia e/ou de favelas (61,4%), pessoas pobres (60,8%), moradores e/ou trabalhadores de áreas rurais (56,4%) e negros (55%). Mais preocupante é o fato que o preconceito e a discriminação muitas vezes resultam em situações em que pessoas são humilhadas, agredidas ou acusadas injustamente simplesmente pelo fato de fazerem parte de algum grupo social específico. Nota-se que estas práticas discriminatórias no ambiente escolar tem como principais vítimas os alunos, especialmente negros, pobres e homossexuais, com médias de 19%, 18% e 17% respectivamente para o índice percentual de conhecimento de situações de bullying nas escolas entre os diversos públicos pesquisados.”

A escola tem alguma responsabilidade sobre essa realidade? É um espaço onde podemos aprender a conviver na diversidade que nos caracteriza a todos? Essas questões levam também à pergunta sobre onde o preconceito e a discriminação começam e onde eles terminam? Seria ótimo identificar um lugar e definir responsabilidades pontuais, mas a verdade é que estamos mergulhados numa cultura que alimenta preconceitos contra alguns de nós. É um circulo vicioso e precisa ser enfrentado por todos em todos os lugares. O que estamos combatendo e o que queremos?
Preconceito é uma ideia preconcebida sobre alguma coisa. Pode ser positivo ou negativo, mas é sempre algo ruim porque nos afasta de conhecer e até de conviver com outras pessoas e realidades. Se pudéssemos fazer uma divisão didática, o preconceito é um pensamento enquanto a discriminação é um ato. A pesquisa mostra como os preconceitos resultam em humilhações, agressões e acusações injustas, ou seja, em práticas de discriminação. Eles não ficam na cabeça e acabam determinando a maneira de agir. É possível educar as pessoas por meio de diálogos, informações, acesso a conhecimento para que tomem uma atitude e modifiquem sua postura preconceituosa, mas é impossível dizer que podemos erradicar o preconceito. Já a discriminação nós podemos dizer que queremos erradicar por meio de normas claras e punição a quem as pratica.

O kit contra a homofobia é uma das respostas pensadas para enfrentar o que mostrou a pesquisa em relação aos homossexuais. Ele pode contribuir no campo da educação de alunos, professores ou familiares. Ele é bom, bem feito, mal feito? Parece que alguns críticos não estão interessados na discussão sobre a qualidade do material, mas em defender que ele não exista porque a homossexualidade não deveria existir. Bom, aí não há discussão no campo democrático porque estas pessoas alimentam a violência contra homossexuais, vivenciada de diferentes maneiras, desde a negação de sua identidade até o assassinato ou extermínio.
Não é fácil viver num país democrático, mas alguém que defenda o extermínio do outro por ser diferente do que acredita ser o único padrão a ser respeitado, precisa encontrar limites. É a intolerância contra a tolerância, como falamos no primeiro artigo (Diversidades) sobre os limites e a importância da Declaração Universal dos Direitos Humanos. Tirando os excessos e radicalismos não democráticos e que atentam contra a Constituição e os direitos humanos, que bom que temos um material para ser discutido na sociedade sobre como iremos nos educar para conviver com a diversidade sexual.

Tem horas que a informação pode fazer a diferença sobre o nível de respeito que um segmento tem na sociedade. Neste caso, falar do tema orientação sexual, tirá-lo da invisibilidade e propor reflexão na sala de aula e fora dela pode ser um ótimo caminho para que os homossexuais sejam mais respeitados do que são hoje. E você, como tem se educado neste tema? Como está educando seus filhos? Eles serão aqueles que aparecem no noticiário policial por espancar ou assassinar homossexuais ou são aqueles que respeitam e trabalham para que todos sejam respeitados?

Site Portal Guia do ABC: http://www.portalguiaabc.com.br/category/diversidade-gls
Site IG: Unesco dá parecer favorável a material contra homofobia: http://ultimosegundo.ig.com.br/educacao/unesco+da+parecer+favoravel+a+material+contra+homofobia/n1238103119025.html

quarta-feira, 25 de maio de 2011

Artigo de Miriam Leitão sobre falecimento de Abdias do Nascimento

O Globo - Enviado por Míriam Leitão - 24.05.2011 - 16h08m

Homenagem

Uma vez, numa entrevista que me concedeu, Abdias Nascimento disse que ele foi preso, enquadrado na Lei de Segurança Nacional, viveu no exílio por 10 anos, sem ter nunca integrado qualquer partido clandestino de combate à ditadura.
- Tudo o que eu fiz foi combater o racismo.
Era uma forma de mostrar que esse tema sempre foi tratado como inconveniente. Na ditadura, era proibido. Isso era subversivo o suficiente para os ditadores da época. Hoje ainda é delicado e difícil. Sua vida foi dedicada a tratar desse assunto intratável.
Como jornalista, teatrólogo, escritor, cineasta, artista plástico, senador, militou na mesma causa: construir um país realmente multiracial com a derrubada, de fato, de todas as barreiras que impedem a ascensão dos negros no Brasil.
Não um país que finge não ver as diferenças para proclamar a igualdade, mas o que constrói as pontes fortalecendo a autoestima dos pretos e pardos brasileiros e abrindo oportunidades. Foi por esse Brasil que Abdias lutou.
Abdias abriu espaços notáveis na cultura brasileira para essa sociedade com a qual sonhou por tanto tempo. Quilombo era um jornal dos anos 1950 que abriu a discussão do combate ao racismo. O Teatro do Negro foi outra iniciativa pioneira que revelou inúmeros talentos para a dramaturgia brasileira, numa época em que atores brancos pintavam o rosto de preto para fazer os papéis de negros. Na militância foi um dos fundadores do Movimento Negro Unificado.
As conversas com ele e sua mulher Elisa Larkin, americana de nascimento, eram sempre ricas de reflexões sobre velhos vícios do Brasil, como o de negar o problema.
Nos últimos anos ele viu duas notícias. A boa é que é visível a formação da classe média negra e do aumento do poder de pretos e pardos no Brasil. A ruim é que as distâncias permanecem enormes e uma parte do país prefere não discutir o tema, insiste em ficar em atalhos que fogem da questão central. A desigualdade racial ainda é enorme no Brasil.
Outro dia fui ao Sindicato dos Jornalistas do Rio no lançamento do Prêmio Abdias Nascimento. Sindicato ao qual ele se filiou em 1947.
Ele já estava doente, mas a cerimônia aconteceu ainda assim. Lá eu disse que Abdias, que tinha 97 anos, foi precursor e persistente no mesmo sonho ao longo da vida inteira: a de combater o racismo em todas as suas formas.
Fará falta Abdias, mas quem sonha com um Brasil de menos desigualdades, sabe que ele combateu o bom combate.
http://oglobo.globo.com/economia/miriam/posts/2011/05/24/abdias-nascimento-uma-vida-inteira-de-combate-ao-racismo-382348.asp

terça-feira, 24 de maio de 2011

Abdias do Nascimento faleceu hoje, 24 de maio de 2011

Abdias do Nascimento
Por Reinaldo Bulgarelli, 24 de maio de 2011

Eu era um adolescente de 16 anos em 1978 quando ajudei meu amigo Renato Wagner Oliveira Nascimento a fundar o grupo de jovens da Igreja Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos de São Paulo. Foi inevitável que passássemos a pensar a questão do negro e das relações raciais, mesmo porque a cidade, o país o mundo estava discutindo a questão racial. Na TV, o seriado Raízes levantava a questão e a moral dos negros. O black power não era apenas um penteado, mas uma maneira de ser e olhar o mundo.

Eu e Renato íamos a manifestações do movimento negro nas ruas do centro de São Paulo. Algumas, como o treze de maio, aconteciam na própria Igreja do Rosário, com a imagem da Mãe Preta no Largo do Paissandú servindo de referência para os protestos contra a data.

Meu grande encontro com a questão, do ponto de vista intelectual, foi na escadaria do Teatro Municipal. Lá Abdias do Nascimento discursava numa manifestação do Movimento Negro Unificado, que surgia exatamente neste mesmo 1978. O que ele dizia fazia sentido a tudo que eu mesmo experimentava como branco e como branco na convivência com amigos negros. Não era uma questão apenas de entender, mas de sentir. Não era uma questão de concordar com tudo, mas de ver alguém com a alma exposta naquilo que dizia e fazia e gesticulava. E como gesticulava o Abdias.

Abdias virou minha referência. Depois veio o União e Consciência Negra e outros espaços para pensar a questão das relações raciais. Tudo isso me moldou, fez pensar o que era ser branco numa sociedade racista, qual era o meu papel, o que poderia e deveria fazer e assim tem sido, em constante reflexão sobre isso.

Gostatamos tanto de citar Mandela, com toda razão, mas Abdias era nosso Mandela, com denúncias contundentes e anúncios de um futuro sonhado que servem de horizonte para muitos. Uma vida tão longa, 97 anos, não foi suficiente para ver todos esses sonhos realizados, mas não foi em vão. Ele é exemplo de alguém que soube viver seu tempo e lugar. Isso nunca é em vão. 

Não se mede uma vida apenas pelos resultados das lutas que a pessoa travou, mas pelos sonhos que nos fez sonhar. As pessoas vão embora, mas os sonhos ficam para conduzir gerações. Neste caso, o sonho de um país racialmente justo, sem discriminação, onde a diversidade possa ser mais do que uma característica, mas a nossa maior força.

Descanse em paz nosso guerreiro Abdias e um imenso agradecimento do jovem que te viu bradar nas escadarias do Teatro Municipal para nunca mais te esquecer.

Postei um vídeo com Abdias no meu canal no Youtube. É do Programa Espelhos, com Lázaro Ramos: http://www.youtube.com/user/ReiBulga?feature=mhee

Mensagem da Diretora-Geral da UNESCO: Dia Mundial da Diversidade Cultural 2011

Mensagem de Irina Bokova, Diretora-Geral da UNESCO, por ocasião do Dia Mundial da Diversidade Cultural para o Diálogo e o Desenvolvimento – 21 de maio de 2011




Mensagem da Diretora-Geral da UNESCO para o Dia Mundial da Diversidade Cultural – 21 de maio de 2011

20 de maio de 2011
Há dez anos, a comunidade internacional se reuniu para destacar a importância do diálogo entre as culturas e seu compromisso com a diversidade, adotando unanimemente a Declaração Universal sobre a Diversidade Cultural da UNESCO.
Com esta declaração histórica, os Estados do mundo reconheceram a diversidade cultural como um patrimônio comum da humanidade.
Todas as culturas e civilizações contribuem com o enriquecimento da espécie humana. A diversidade cultural é um ponto forte. Sua defesa é um imperativo ético, inseparável do respeito pela dignidade humana. O reconhecimento desta diversidade pode acelerar o entendimento mútuo e criar um espaço comum ao redor de valores compartilhados. Ninguém pode invocar a diversidade cultural para violar os direitos humanos, ou limitar seu escopo.
O entendimento da diversidade cultural é um aliado na busca pelo desenvolvimento. Várias décadas de programas internacionais mostraram que não há um modelo único de desenvolvimento que seja aplicável a todos os países e a todas as culturas. O reconhecimento da diversidade cultural é a única coisa que pode nos ajudar a implementar programas apropriados.
Há mais de 20 anos a UNESCO busca promover a importância da diversidade cultural, elaborando políticas internacionais de desenvolvimento que sejam mais efetivas e sustentáveis. A onda de democracia que surge no mundo árabe em 2011 é uma prova da universalidade do desejo de liberdade e dignidade. Ela confirma a relevância da Declaração de 2001 e a necessidade de assegurar que seus princípios sejam postos em prática.
A adoção da Convenção da UNESCO para Salvaguarda do Patrimônio Cultural Imaterial (2003) e da Convenção da UNESCO sobre a Proteção e a Promoção das Expressões de Diversidade Cultural (2005) foi um grande passo para o reconhecimento desta diversidade. A resolução das Nações Unidas sobre cultura e desenvolvimento, adotada pela Assembleia Geral das Nações Unidas em 20 de dezembro de 2010, é outro passo revolucionário que enfatiza a contribuição da cultura e da diversidade cultural com o desenvolvimento sustentável e com a realização das Metas de Desenvolvimento do Milênio.
Este progresso reflete uma tendência positiva. Esta nova consciência deve se materializar em ação para apoiar os grupos populacionais e o diálogo cultural. É necessário entender esta diversidade se quisermos fortalecer a cooperação entre os Estados, enfrentar juntos desafios comuns e aprender a conviver em sociedades modernas e, geralmente, heterogêneas. Assim, apelo aos governos, às ONGs e à sociedade civil para que contribuam com a melhoria de nossas habilidades interculturais por meio da arte, do esporte, do aprendizado de ciências humanas e idiomas, e para que melhorem nossa diversidade, para o benefício de todos.
Retirado do site da ONU Brasil: http://unicrio.org.br/mensagem-da-diretora-geral-da-unesco-para-o-dia-mundial-da-diversidade-cultural-%e2%80%93-21-de-maio-de-2011/

quarta-feira, 18 de maio de 2011

Prefeitura do Rio de Janeiro lança campanha contra a homofobia


Falar é muito bom e fazer é melhor ainda. Que o exemplo do governo do Rio de Janeiro, Prefeitura e Estado, possa ser seguido por muitas organizações. Ontem foi o dia mundial contra a homofobia e este gesto é mais que simbólico para nos ajudar, como sociedade, a conviver com a diversidade e respeitar os direitos de todos.

Do site da UOL - 18/05/2011 - 12h26                                

"No Rio, Paes lança conjunto de ações contra homofobia


Rio - A exemplo do que fez na segunda-feira o governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral (PMDB), o prefeito da capital fluminense, Eduardo Paes (PMDB), assinou hoje um decreto que garante a travestis e homossexuais a opção de serem chamados pelo nome masculino ou feminino de sua preferência, independentemente da informação que consta no documento de identidade. O direito vale para servidores e usuários dos serviços da prefeitura do Rio, como escolas e postos de saúde.

Segundo o vice-presidente do Grupo Arco-Íris, Alejandro Pobes, o decreto é uma conquista, mas ainda há muito para ser alcançado. Nas escolas, segundo ele, ainda são corriqueiros os casos de bullying contra homossexuais, e o preconceito existe inclusive entre os professores. "Precisamos criminalizar a homofobia", disse.

A coordenadoria especial da diversidade social do município do Rio informou que formará em até 30 dias uma frente de trabalho para coibir os casos de bullying na administração municipal. Serão oferecidos cursos para funcionários em estabelecimentos comerciais, como hotéis e restaurantes, a fim de orientá-los a respeito das leis que asseguram os direitos de homossexuais."

No site de A Capa está o vídeo da campanha: http://acapa.virgula.uol.com.br/politica/veja-o-video-da-campanha-rio-sem-homofobia/2/14/13577

terça-feira, 10 de maio de 2011

Instituto Amanhã - Ambientes Inclusivos - Entrevista com Reinaldo Bulgarelli e cases empresariais

O caderno 5 do Instituto Amanhã - Núcleo de Projetos Especiais da Revista AMANHÃ, com reportagem e textos de Paulo Cesar Teixeira, já está disponível no link abaixo.

Este caderno tratou do tema "ambiente inclusivo" e o título do caderno é "Estímulo à Diferença". Como sempre me pedem casos empresariais, há três clientes meus na matéria - John Deere, Walmart e DuPont. Há também outros cases muito interessantes.

Vale a pena conhecer também os demais cadernos. Uma contribuição do Instituto Amanhã que deve ser valorizada. Divulgue!

Apresentação do projeto: "Nos últimos anos, o problema da exclusão social passou a ser encarado de uma forma mais definitiva. Projetos liderados por empresas, além de programas oficiais de governo (como o Bolsa-família e o Bolsa-escola) e iniciativas de organizações não-governamentais, estão garantindo a inclusão de uma parcela da população que, até então, ficava à margem. A nova série de cartilhas da Revista e do Instituto AMANHÃ mostra o que vem sendo feito para promover a inclusão social – por meio da educação, de políticas de distribuição de renda, de projetos de empresas e do Terceiro Setor. E também o que ainda precisa ser enfrentado para permitir que populações e grupos hoje excluídos passem a conviver com o resto da sociedade e a desfrutar de bens e serviços básicos.


Outra missão desse projeto foi esclarecer definitivamente o conceito de inclusão social, que algumas vezes é associado apenas à pobreza. O tema será tratado da forma mais ampla possível: vai abordar, sim, a miséria, mas também as dificuldades de grupos como os deficientes físicos, os idosos, e todos aqueles que sofrem com o preconceito racial, entre outros."

Boa leitura.

Link para o Caderno 5: Ambientes Inclusivos

segunda-feira, 9 de maio de 2011

Voluntários da Fundação Bunge - Uma homenagem a quem trabalha pela vida

Voluntários - Uma homenagem a quem trabalha pela vida

por Reinaldo Bulgarelli, 09 de maio de 2011

Dia 09 de abril eu fui ao Embú palestrar para os voluntários da Bunge, animados na ação e no 5o Encontro Nacional pela Fundação da empresa. Fui falar de voluntariado e diversidade.

Naquela semana havia acontecido a tragédia na escola do Rio de Janeiro. Um criminoso jovem, evidentemente perturbado, invadiu a Escola Municipal Tasso da Silveira, em Realengo, no Rio de Janeiro, matando 12 crianças, ferindo 10 e deixando todo o país em luto.

Estava pensando no que dizer naquele momento para voluntários, funcionários da empresa que trabalham em escolas e que estavam especialmente chocados com essa violência. Na hora me veio a ideia de homenageá-los pedindo, ao invés de um minuto de silêncio, um minuto de palmas para os voluntários. Eles entram na escola não para tirar vidas, mas para levar vida.

Por meio destes maravilhosos voluntários, faço aqui a homenagem a todos os voluntários que atuam nas escolas por este país a fora. Enquanto um sujeito causa tanta dor, há estas pessoas, milhares e milhares delas, que "invadem" as escolas durante todo o ano para fazer algo de bom pelas crianças, suas famílias, pelas escolas, pela educação e por nosso país.

Eu estava com o coração apertado naqueles dias. Quem não estava? A gente trabalha exatamente contra essa violência, promovendo a paz, tolerância, entendimento. Mas estar com centenas de voluntários da Bunge e o pessoal da Fundação Bunge me fez sair de lá com a certeza que há muito mais gente fazendo coisas boas. É gente que faz coisas tão importantes e que pode não ganhar as manchetes de todos os noticiários no mesmo instante em que praticam uma boa ação. Mas, estão lá brilhando num cotidiano de solidariedade, tecendo as redes de um país que já é diferente e melhor só pelo fato deles existirem e fazerem o que fazem na comunidade.

Aproveito para postar aqui, além do vídeo com os melhores momentos do evento, o link para o Projeto Escola Brasil, mantido pelo Banco Santander. Lá também se estimula e se oferece apoio para que centenas de funcionários atuem como voluntários nas escolas deste país. Fiz, com Roberta Rossi, um material para os voluntários atuarem com diverisdade na escola. Eles editaram e está no site neste link: http://www.santander.com.br/document/wps/escola_de_todos.pdf

Voluntários, cheios de sonhos e que transformam em presente o que imagiram para o futuro, fica aqui minha homenagem a todos vocês.

Link para vídeo com melhores momentos do 5o Encontro Nacional de Voluntários - Fundação Bunge: Fundação Bunge - Interatividade - Vídeos - 5º Encontro Nacional de Voluntários - Melhores Momentos

domingo, 8 de maio de 2011

Dia das mães - Escolhas que precisam ser valorizadas

Dia das mães - Escolhas que precisam ser valorizadas


Reinaldo Bulgarelli, 08 de maio de 2011

Eu gosto de lembrar a minha própria vida para tratar de alguns temas. E tenho o privilégio de ter “memória de berço”. Lembro-me de passagens interessantes da infância. Nem sei o que eu estava fazendo ontem, mas certas coisas de décadas atrás eu lembro com nitidez. E neste dia das mães, porque não se lembrar da própria mãe para homenagear as mães?

Uma das histórias é sobre a minha escola e aconteceu em 1967, quando eu tinha de cinco para seis anos. Por um erro na matrícula, fui parar no primeiro ano ao invés de ir para o pré-primário. Assim chamavam. Meu pai ficou tão feliz que nem permitiu que o erro fosse sanado. Imagino que ele considerou aquilo como um vestibular ou um prêmio pela minha maravilhosa inteligência, mas foi só um erro de matrícula que me custou fazer o primeiro ano novamente. O diretor recobrou o juízo repentinamente, bem na hora de eu seguir adiante com a minha turma e, apesar das notas, repeti.

Neste primeiro ano, minha professora, por quem eu deveria ter devoção inconteste, dizia que era um erro usar a mão esquerda para escrever. Era uma imoralidade que precisava ser corrigida com castigos. Amarrou a minha mão esquerda e obrigou-me a escrever com a direita. Ela me humilhou na frente dos colegas. Justamente na frente daqueles sujeitos mais velhos que eu estava matutando um jeito para me enturmar. Quando se tem cinco anos, faz muita diferença conviver com quem tem sete.

Essa tortura durou apenas dois dias. No primeiro dia eu não disse nada em casa. Aprendi, logo de cara, que a escola era outro mundo. Todos os rituais eram assustadores e ao mesmo tempo despertavam minha curiosidade. Onde será que aquilo ia dar? Tinha que usar uniforme, levar lancheira, entrar e sair em bandos, fazer fila, fingir que cantava o hino nacional diante da bandeira brasileira, ficar em fileiras de carteiras sem poder conversar com os outros, sem ir ao banheiro (mesmo com vontade) e jamais, nunca, sob qualquer hipótese, usar a mão esquerda para escrever no meu lindo caderno novo.

Não vi diferença entre um horror e outro. Imaginei que todas as crianças eram despejadas naquele local para esse tipo de tortura. Meu pai encheu os olhos d’água quando me entregou à multidão de crianças que subiam a escadaria do Marina Cintra. Imaginei que bom lugar não seria. Era obrigatório, eu logo entendi, porque todas as crianças iam para lá e porque não encontrei brechas para negociar nada, do uniforme, bota ortopédica ao sabor do pacotinho de Lanches Mirabel.

No segundo dia, contudo, eu achei que havia algo de estranho. Eu era o único canhoto da sala e minha exposição pública atingia um nível insuportável. Desconfiei que aquela monstra tivesse saído de algum lugar do inferno porque ela o conhecia bem. Dizia que eu era filho do diabo e iria morar no inferno se continuasse escrevendo com a mão esquerda. Descrevia tudo com tantos detalhes que só poderia ser minha irmã.

Como meu pai - meu herói! - não era o diabo e jamais havia feito qualquer comentário desabonador sobre minha mão esquerda, resolvi arriscar e contar um segredo sobre a vida paralela: a escola. Meu pai ficou indignado e, como sempre, esbravejou muito, disse que a professora era ignorante, que a escola pública já tinha sido melhor. Minha mãe ficou mais calada.

Dias antes, comprando plástico para encapar os cadernos e a cartilha Caminho Suave, ela havia me dito que nunca tinha ido à escola. Mais um motivo para eu desconfiar daquele lugar, mas ela disse aquilo sentida, mostrando que a vida na roça e o fato de ser mulher não permitiam esse privilégio. Eu não sabia ainda o que era ser alfabetizado, portanto, não sabia o que era ser analfabeto. Assim era minha mãe.

Fez poucos comentários para concordar com meu esbravejante pai. Talvez estivesse tão perplexa como eu sobre esse mundo estranho que nós dois não conhecíamos. Dia seguinte, ainda muito calada, levou-me na escola e pediu para falar com a professora. Não me deixou entrar na sala com os outros, segurou-me firme e logo na porta começou uma discussão com a professora. Eu fui arregalando os olhos, admirado pela defesa incondicional da minha atuante mão esquerda. Não sabia se continuava olhando para a cara amedrontada da professora ou se, com o olhar, eu fizesse com que todos os colegas prestassem atenção naquilo. Meu olhar dizia tudo: Viram? É minha mãe. Aí de quem mexer comigo!

Uma mulher analfabeta conseguiu inibir os ímpetos da professora de me queimar vivo na fogueira da inquisição. Proibiu que ela fizesse qualquer comentário ou gesto para me impedir de ser canhoto. Não me lembro das “delicadezas” que ela disse para a professora, mas me senti tão protegido e tão orgulhoso que nunca mais me esqueci. Ser canhoto era uma condição e não uma escolha. Eu podia forçar e ser destro, mas minha mãe não deixou que a torturadora me transformasse em alguém diferente. Eu era canhoto e ponto final. Eu entendi que qualquer injustiça que eu viesse a sofrer, poderia contar com a minha mãe. Entendi que injustiça não era com ela.

Mais tarde, quando eu estava na quinta série do ginásio, passei a alfabetizar minha mãe. Ela se animou tanto que seguiu estudando no Mobral e depois num supletivo, a ponto de escrever seu caderno de receitas culinárias e mostrar para todos com orgulho. Fazia tricô e crochê, como sempre fez, mas agora tinha revistas para tirar os pontos que queria.

Conto primeiro esta passagem para falar de outra que aconteceu um pouco antes, quando eu tinha quatro anos. Eu quis levantar para ir ao banheiro, mas não consegui. Minhas pernas não se mexiam. Acordei meus pais, que dormiam ao lado. Era o único quarto naquele apartamento do zelador, um porão cujas janelas davam para o jardim do Edifício Itambé, bem diante do Mackenzie. Vi o pavor deles, mas lembro que fiquei tranquilo, confiante, mesmo porque não doía nada. Apenas não conseguia esticar as pernas encolhidas, duras, sem o menor sinal de que eram minhas.

Um morador do prédio logo apareceu com um fusquinha vermelho para nos levar à Santa Casa. Era de madrugada. Lá eu fui torturado por médicos que ficavam à minha volta enquanto um batia com um martelinho horrível no meu joelho. Nada dele responder com um chute na cara daqueles tiranos. Eu mostrei, para dissuadi-los da tortura, como meu dedão direito se mexia como Vicente Celestino e como o esquerdo parecia com o nascente Iê-iê-iê. Voltei para casa e fiquei ainda uns cinco dias sem mexer as pernas.

Continuei confiando nos meus pais. Eles dariam um jeito. Vi na cara deles um olhar de pena que jamais esqueci. Eles me olhavam com tanto dó e com profundos suspiros que venci a vergonha e pedi de volta a chupeta. Ela tinha sido jogada no lixo em repetidos rituais até que uns meses antes funcionou. Livrei-me, para alegria dos meus pais, da amada chupeta.

Passei a dormir na cama com minha mãe. Meu pai foi para o meu lugar. Durante o dia, imóvel da cintura para baixo, ficava na cama de casal imensa e recebendo um carinho extra e exclusivo. Melhor de tudo eram as visitas. O povo do prédio, da vizinhança, os parentes e os meus amiguinhos todos vinham em romaria. Eu escondia a chupeta, claro. Estar doente era uma festa e eu até recebia presentes.

Não sabia quando e se voltaria a andar, mas a pólio brigou com a vacina durante aqueles dias e perdeu, sem deixar sequelas. Também à noite eu tive aquela estranha vontade de ir ao banheiro e fui. Só me dei conta de que estava andando quando já tinha saído da cama. Perdi a chupeta e as visitas e os presentes. Não consigo ter lembrança ruim daqueles dias em que a paralisia infantil me rondou.

Lembro-me daquele olhar piedoso dos meus pais e da atenção que eu bem soube aproveitar. Lembro-me também que estavam lá pra tudo, incluindo a busca por uma cadeira de rodas. Para mim, qualquer coisa com rodas era uma diversão. Para meus pais, não tinha diversão alguma, mas lá estavam. E minha mãe contou essa história muitas vezes pela vida a fora. Disse que chorava, mas eu não vi. Disse que moveu o mundo atrás de solução com os médicos e, ao mesmo tempo, foi atrás da cadeira de rodas, um exagero, eu sei, mas devia ser uma forma de encarar a situação. Não vi essas coisas, só senti sua presença, pronta pra garantir felicidade em qualquer circunstância.

Bom, essas foram minhas experiências. Pelo menos as boas. Quando coloquei brinco, nos meados dos anos 80, minha mãe defendeu a pena de morte e foi meu pai que me defendeu. Ficou um sentimento de gratidão e ao mesmo tempo de admiração, sobretudo quando olho daqui pra trás. Quando vejo as mães de filhos homossexuais na Parada do Orgulho LGBT ou quando vejo mães de filhos com deficiência, mesmo quando não possuem deficiência ou não são homossexuais, acho incrível essa solidariedade. Chamam de natural, instinto materno ou outras bobagens. O que há mesmo é uma escolha.

Outro dia, para um amigo que estava passando uma situação difícil, eu o fiz lembrar que não estava sozinho e que contava com sua família. Ele deu entender que contava com eles porque eram da família. Eu, que conheço a família, bem sei que não tem nada a ver com laços genéticos. Eles compartilhavam uma escolha e não um sangue correndo nas veias. Era a escolha por serem próximos, amigos, parceiros, corresponsáveis e solidários.

Uma mãe companheira ou distante, não deixa de ser mãe, um título que recebe com a maternidade. Mãe é mãe. Mas essa mãe que escolhe estar junto, tem que ser ainda mais valorizada. Minhas homenagens a todas as mães, mas minhas homenagens especiais às mães que escolhem conviver, acolher e promover a diversidade. Elas são uma referência que muitos querem reduzir ao instinto materno, como se não fizessem nada mais do que a obrigação, mas são um sinal para toda a humanidade de que outro mundo é possível. E que maravilha quando este mundo novo começa dentro de casa.

Não estou dizendo que essas mães são exemplo de resignação ou de aceitação das desgraças que acontecem na vida. Pelo contrário, essas mães vão à luta pelo direito à diferença. Como sempre gosto de lembrar, cada um de nós é único, uma das possibilidades que a vida encontrou dentro das muitas composições possíveis. Elas entendem que a diversidade não é uma desgraça, um desvio da vida, mas a vida acontecendo e se expressando com a sua pluralidade. Não é de um amor incondicional que estou falando, também muito lindo, nada contra, mas é de um entendimento, em algum momento, de que é bacana conviver com alguém que não é como você, muito menos como você gostaria ou esperaria que fosse. E pais sabem, como sabem, esperar coisas dos filhos, que sejam assim ou assado, a cara deles ou dos sonhos deles. Por isso há escolha, nada natural, nada genético, grudado na condição de mãe.

Ah, se você é adotado e fica enraivecido pela ausência de vínculos genéticos, saiba que a melhor coisa do mundo é ser adotado, escolhido, seja pela mãe biológica ou não. Feliz dia das mães e boas escolhas!

p.s. Se você bateu no seu filho porque ele é canhoto, não precisa ficar envergonhada, basta pedir sinceras desculpas e fazer diferente, reinventar a relação. Sempre é tempo.

sexta-feira, 6 de maio de 2011

Supremo Tribunal Federal reconhece união homoafetiva

Supremo reconhece união homoafetiva
da redação do site do STF

Os ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), ao julgarem as Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI) 4277 e da Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF) 132, reconheceram a união estável para casais do mesmo sexo. As ações foram ajuizadas na Corte, respectivamente, pela Procuradoria-Geral da República e pelo governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral.


O julgamento começou na tarde de ontem (4), quando o relator das ações, ministro Ayres Britto, votou no sentido de dar interpretação conforme a Constituição Federal para excluir qualquer significado do artigo 1.723, do Código Civil, que impeça o reconhecimento da união entre pessoas do mesmo sexo como entidade familiar.

O ministro Ayres Britto argumentou que o artigo 3º, inciso IV, da CF veda qualquer discriminação em virtude de sexo, raça, cor e que, nesse sentido, ninguém pode ser diminuído ou discriminado em função de sua preferência sexual. “O sexo das pessoas, salvo disposição contrária, não se presta para desigualação jurídica”, observou o ministro, para concluir que qualquer depreciação da união estável homoafetiva colide, portanto, com o inciso IV do artigo 3º da CF.

Os ministros Luiz Fux, Ricardo Lewandowski, Joaquim Barbosa, Gilmar Mendes, Marco Aurélio, Celso de Mello e Cezar Peluso, bem como as ministras Cármen Lúcia Antunes Rocha e Ellen Gracie acompanharam o entendimento do ministro Ayres Britto, pela procedência das ações e com efeito vinculante, no sentido de dar interpretação conforme a Constituição Federal para excluir qualquer significado do artigo 1.723, do Código Civil, que impeça o reconhecimento da união entre pessoas do mesmo sexo como entidade familiar.

Na sessão de quarta-feira, antes do relator, falaram os autores das duas ações – o procurador-geral da República e o governador do Estado do Rio de Janeiro, por meio de seu representante –, o advogado-geral da União e advogados de diversas entidades, admitidas como amici curiae (amigos da Corte).

Ações

A ADI 4277 foi protocolada na Corte inicialmente como ADPF 178. A ação buscou a declaração de reconhecimento da união entre pessoas do mesmo sexo como entidade familiar. Pediu, também, que os mesmos direitos e deveres dos companheiros nas uniões estáveis fossem estendidos aos companheiros nas uniões entre pessoas do mesmo sexo.

Já na Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF) 132, o governo do Estado do Rio de Janeiro (RJ) alegou que o não reconhecimento da união homoafetiva contraria preceitos fundamentais como igualdade, liberdade (da qual decorre a autonomia da vontade) e o princípio da dignidade da pessoa humana, todos da Constituição Federal. Com esse argumento, pediu que o STF aplicasse o regime jurídico das uniões estáveis, previsto no artigo 1.723 do Código Civil, às uniões homoafetivas de funcionários públicos civis do Rio de Janeiro.

Redação - Notícias STF :: STF - Supremo Tribunal Federal

sexta-feira, 29 de abril de 2011

Censo 2010 contabiliza mais de 60 mil casais homossexuais

Carolina Lauriano e Nathália Duarte Do G1, no Rio e em São Paulo


29/04/2011 10h00 - Atualizado em 29/04/2011 10h10

Censo 2010 contabiliza mais de 60 mil casais homossexuais


Resultados preliminares foram divulgados nesta sexta-feira (29), pelo IBGE.

País tem 37,5 milhões de pessoas que vivem com cônjuges do sexo oposto.

O Brasil tem mais de 60 mil casais homossexuais, segundo dados preliminares do Censo Demográfico 2010, divulgados nesta sexta-feira (29). Essa foi a primeira edição do recenseamento do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) a contabilizar a população residente com cônjuges do mesmo sexo.

Ainda de acordo com os resultados preliminares, 37.487.115 pessoas vivem com cônjuges do sexo oposto.

Em números absolutos, a região com mais casais homossexuais é o Sudeste, que abriga 32.202 casais, seguida pelo Nordeste, com 12.196 casais. O Norte tem o menor número de casais do mesmo sexo: 3.429, seguido do Centro-Oeste, com 4.141. A Região Sul tem pouco mais de 8 mil casais homossexuais. Entre os estados, São Paulo é o que tem a maior quantidade de casais homossexuais (16.872) e Roraima é o que tem menos, com apenas 96 casais que se declararam homossexuais.

Nesta sexta, o IBGE também divulgou a Sinopse do Censo Demográfico 2010, que apresenta os primeiros resultados definitivos do último recenseamento. Alguns números divulgados preliminarmente em novembro de 2010 foram ajustados, a exemplo do total da população, com a inclusão de estimativas sobre a população dos domicílios considerados fechados durante a coleta de dados.

Os censos demográficos são realizados no Brasil a cada dez anos. Participaram desta edição, segundo o IBGE, cerca de 230 mil recenseadores, supervisores, agentes censitários e analistas censitários. A coleta do Censo 2010 foi realizada entre 1º de agosto e 30 de outubro de 2010.

Grau de parentesco

Dos 67,5 milhões de domicílios recenseados, mais de 57 milhões são considerados particulares e têm ao menos uma pessoa apontada como responsável pelos demais moradores da casa.

Sobre o grau de parentesco dos residentes em domicílios particulares com relação ao responsável pelo domicílio, o levantamento preliminar aponta que, 71.279.012 brasileiros são filhos ou enteados que moram com os pais; 9.123.939 são netos ou bisnetos; 12.771.453 tem outro grau de parentesco; e 1.924.250 não possuem nenhum grau de parentesco com os demais moradores do domicílio.

“Um morador de cada domicílio respondeu ao questionário e enumerou o grau de parentesco de cada morador do domicílio. Quem é o responsável, o cônjuge, o filho, o neto e demais parentescos que podem aparecer”, explica a demógrafa Leila Ervatti, do IBGE.

fonte http://g1.globo.com/brasil/noticia/2011/04/censo-2010-contabiliza-mais-de-60-mil-casais-homossexuais.html

sexta-feira, 8 de abril de 2011

Homenagem ao professor Antonio Carlos Gomes da Costa

05/04/2011

Professor Antonio Carlos é homenageado

Evento em memória do pedagogo, que faleceu há um mês, relembrou suas contribuições na área social e emocionou os presentes

Do Portal Pró-Menino

O professor Antonio Carlos Gomes da Costa, falecido há um mês, recebeu uma homenagem carinhosa de amigos e organizações do terceiro setor na última segunda-feira (04/04) em São Paulo. O evento, organizado pelo Cenpec (Centro de Estudos e Pesquisas em Educação, Cultura e Ação Comunitária), Fundação Itaú Social e Txai Consultoria e Educação, relembrou as contribuições do professor e emocionou os presentes.

“Homenagear é uma forma de agradecer ao nosso mestre e, ao mesmo tempo, manter suas idéias atualizadas”, destacou o amigo Reinaldo Bulgarelli, da Txai Consultoria e Educação. “São muitos os temas em que o Antonio contribuiu. Desenvolvimento humano, direitos humanos, voluntariado, terceiro setor, direitos da criança e da juventude... Homenagear é rememorar essas muitas contribuições”, afirmou emocionado.

“É uma dor e, ao mesmo tempo, uma saudade muito grande. Mas ele falava que quando partisse do plano existencial, gostaria de continuar trabalhando. E a gente vê nesse grupo, nesses parceiros, pessoas influenciadas por ele que continuarão agindo”, destacou o irmão Alfredo Carlos Gomes da Costa. Ao lado da esposa de Antonio Carlos, Maria José Gomes da Costa, Alfredo e o sobrinho Mauro Roberto Ribeiro Pinto representaram a família do homenageado.

Maria Alice Setubal, presidente do Conselho de Administração do Cenpec, destacou que homenagens como essas devem existir sempre, para continuar reunindo pessoas influenciadas pelo pensamento e obra do pedagogo. “Aqui se falou de suas múltiplas contribuições. Para o Cenpec, por exemplo, ele foi um grande parceiro, que nos trouxe a importância de se pensar a escola”.

Estiveram presentes amigos como Antonio Jacinto Matias, da Fundação Itaú Social; Daniela Pavan, que representou Sergio Mindlin, da Fundação Telefônica; Fernando Rossetti, do Gife (Grupo de Institutos, Fundações e Empresas); Helio Mattar, do Instituto Akatu; Franscisco de Assis Azevedo da Camargo Corrêa; Evelyn Iorshpe, da Fundação Iorshpe, entre outros. Outros parceiros não puderam comparecer, mas enviaram suas homenagens, como a ABMP (Associação Brasileira de Magistrados, Promotores de Justiça e Defensores Públicos da Infância e da Juventude) e o advogado Edson Sêda.

Leia aqui o agradecimento de Maria José, esposa do professor
Leia também homenagem do amigo Sérgio Mindlin, diretor-presidente da Fundação Telefônica
Confira especial do Portal Pró-Menino em homenagem ao professor
Fonte: Publicado dia 05 de abril no Portal Pró-Menino - Fundação Telefônica -

quinta-feira, 10 de março de 2011

Salário das mulheres cai em relação ao dos homens

Canal RH
Salário das mulheres cai em relação ao dos homens
quinta-feira, 10 de março de 2011
por Lígia Carvalho

Estudo realizado pela Fundação Seade e pelo Departamento Intersindical de Estatística e Estudo Socioeconômicos (Dieese), na região metropolitana de São Paulo, revela que o salário médio das mulheres caiu de 79,8% para 75,2% em relação ao dos homens no comparativo entre 2009 e 2010, rompendo a tendência de equiparação dos salários por gênero que ocorria desde 2000, quando o salário feminino era 73,6% do masculino.

O coordenador da pesquisa, Alexandre Jorge Loloian, da Fundação Seade, acredita, entretanto, que a primeira década do século 21 foi positiva para as mulheres. Ele atribui o aumento da desigualdade salarial entre os sexos, principalmente ao crescimento econômico mais concentrado na indústria, nos últimos anos. Loloian explica que a indústria é o setor que paga os melhores salários e é também predominantemente masculino e como foi o setor que mais cresceu, acabou contribuindo para o desequilíbrio da remuneração por gênero.

Ele admite que ainda há um longo caminho a se trilhar em favor da igualdade entre os gêneros no mercado laboral, mas ressalta que o processo está em andamento, principalmente no que tange às profissões que exigem formação superior. “O número de profissionais femininas com escolaridade superior é de 53,6% da população pesquisada, enquanto os homens com diploma universitário somam 51,3%”, informa o coordenador.

A pesquisa revela que o percentual de população com nível superior completo na região metropolitana de São Paulo saltou de 11,7%, em 2000, para 15% em 2010, sendo que entre as mulheres esse percentual é ainda maior: 17,1% das profissionais na região pesquisada completaram curso superior, enquanto os apenas 13% dos homens alcançaram o mesmo patamar acadêmico.

Serviço doméstico

Outro aspecto que demonstra as melhorias no mercado laboral para as mulheres é o fato da taxa de desemprego feminino estar em queda. De 2009 para 2010, o desemprego feminino caiu de 16,2% para 14,7%, com aumento de oportunidades em todas as áreas, exceto no serviço doméstico, que é o de remuneração mais baixa e com menor nível de formalidade (carteiras assinadas).

“A redução do número de mulheres no setor doméstico foi surpreendente. O cenário mudou, o número de mulheres em serviços especializados com engenharia, advocacia e arquitetura aumentou e não para de crescer a quantidade de mulheres que ocupam vagas antes consideradas masculinas”, observa Loloian.

Na opinião de Andrea Marcelino, sócia da Ramagui, consultoria em recursos humanos, apesar da emancipação feminina e do forte desenvolvimento profissional das mulheres, ainda há uma série de desigualdades, principalmente em cargos médios. A consultora acredita que a diferença de salários não ocorre por questões profissionais, mas está relacionada com heranças culturais.

“Contrato pessoas para cargos executivos há 15 anos, nunca observei uma diminuição de salário pelo fato da profissional ser mulher; por outro lado, em posições de menor responsabilidade essa diferença ocorre e creio que é um reflexo do passado, do tempo em que as mulheres tinham um papel mais voltado para as relações familiares”, comenta.

Ao analisar o fato de hoje haver mais mulheres com curso superior do que homens, a consultora ressalta o esforço das profissionais femininas em superar o preconceito no ambiente laboral para ocupar os postos de nível hierárquico mais elevado. “O preconceito diminui quando a mulher apresenta qualificações técnicas acima da média encontrada”, destaca Andrea.

A consultora admite, entretanto, que ainda é grande a preocupação com licenças maternidade, saídas para acompanhar filhos ao médico e outras atribuições voltadas ao âmbito familiar, principalmente para cargos de menor exposição.

Salário das mulheres cai em relação ao dos homens

quarta-feira, 9 de março de 2011

Licença maternidade de 6 meses e setor privado

Licença-maternidade de 6 meses chegou a poucas gestantes do setor privado


Carolina Pimentel

Repórter da Agência Brasil

Brasília - A licença-maternidade de seis meses já é uma realidade para as funcionárias públicas de 22 estados e 148 municípios, além do Distrito Federal. O levantamento é da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), idealizadora do projeto da licença ampliada no país.

Desde 2008, as servidoras públicas federais também usufruem da licença de 180 dias, ano em que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva sancionou a lei que instituiu o benefício no funcionalismo federal. No caso de estados e municípios, cada um deve fazer sua própria lei.

Mães e médicos garantem que o tempo extra ao lado do bebê é fundamental para o desenvolvimento da criança, além de garantir o aleitamento materno exclusivo nos primeiros seis meses, que aumenta a defesa do organismo do recém-nascido contra doenças nos primeiros anos de vida e também na fase adulta.

“Acabei de ter meu primeiro filho. Na minha opinião, é importante esse convívio que a mãe tem com o seu filho no período de seis meses para dar mais atenção”, disse Floriza de Almeida, 35 anos, técnica em radiologia de um hospital público no Distrito Federal.

A licença ampliada ainda não chegou a todas as gestantes que trabalham no setor privado. A lei atual prevê que a concessão dos salários dos dois meses extras é opcional para as empresas. O patrão que aderir pode descontar a despesa do imposto de renda. Os salários referentes aos primeiros quatro meses de licença, previstos na Constituição Federal, permanecem sendo pagos pelo INSS.

No entanto, somente as empresas que declaram pelo sistema de lucro real podem solicitar o incentivo fiscal. Mais de 160 mil empresas estão nesse grupo, a maioria de grande porte, conforme dados da Receita Federal até o final de 2010. Ficam de fora aquelas que declaram pelo Simples ou pelo sistema de lucro presumido – micro e pequenas empresas.

“É injusto eu ter apenas quatro meses para ficar com meu filho e não seis”, reclama a corretora Ana Lícia Nascimento, 21 anos, grávida de seis meses.

Segundo a coordenadora de Acompanhamento da Licença-Maternidade da SBP, Valdenise Martins, não há levantamento preciso da quantidade de empresas que já aderiram à licença-maternidade ampliada. As estimativas falam em 10,6 mil empresas brasileiras. Para aumentar a adesão do empresariado, a coordenadora defende que a licença se torne obrigatória para todos os setores do país.

No ano passado, o Senado aprovou a obrigatoriedade da licença-maternidade de seis meses tanto para o setor privado quanto o serviço público. O projeto foi encaminhado para votação na Câmara dos Deputados. “A gente precisa agora fazer propaganda e pressão”, disse a coordenadora.

Edição: Lílian Beraldo - Início - Agência Brasil

terça-feira, 8 de março de 2011

Dia da Mulher 2011: o que as empresas podem fazer?

Dia da Mulher 2011: o que as empresas podem fazer?
Reinaldo Bulgarelli, 08 de março de 2011


A impressão que eu tenho, talvez por trabalhar na área, é que o mundo empresarial não está acompanhando as rápidas mudanças na sociedade brasileira. Vejo isso também no mundo empresarial dos países latino-americanos. A sociedade vai na frente e as empresas nem sequer vão atrás.

Ainda não perceberam que há, por exemplo, uma oferta generosa de profissionais mulheres com formação nas mais diferentes áreas. Há mulheres engenheiras, pedreiras, eletricistas, na segurança, advogadas, na área de TI... Mas, muitas empresas ainda insistem em falar em apagão de talentos ou que não há mulheres para trabalhar numa área específica. Em geral, não acompanham dados do IBGE, MEC, IPEA e ficam com discurso incompatível para a realidade que já mudou.

Muitas empresas querem talentos, mas é como se escondessem as condições: “desde que...”. No “desde que” cabe tudo e só sobra o padrão dominante: homem, branco, adulto, sem deficiência, heterossexual, do sul. Travestis e transexuais? Nem pensar! Se há flexibilidade para alguém fora do padrão dominante, não pode ousar demais e sair do lugar. Mulheres devem cuidar das tarefas de sempre e não concorrer a vagas de engenheira, por exemplo. Isso é sair do lugar.

O que as empresas podem fazer para dar um upgrade no seu programa de gestão de pessoas? Podemos listar algumas iniciativas.

1. Sair da caixa e olhar em volta. Buscar e analisar dados sobre a população brasileira. O Brasil e vários países da América Latina estão com uma ótima oferta de indicadores que devem contribuir muito para a gestão empresarial.

2. Voltar pra caixa e olhar para dentro. Realizar censos internos (ver material produzido pela Txai Consultoria e Educação para o Instituto Ethos) é uma boa forma de conhecer a realidade. Nela, em geral, já estão as soluções. Ao olhar para dentro, em geral percebe-se um desperdício de talentos, como mulheres com mais tempo de empresa e mais anos de escolaridade preteridas na carreira por serem mulheres. É preciso dar visibilidade a estas mulheres e programas de mentoring estão ajudando muito nisso, pois ajudam a acelerar a preparação das mulheres ao mesmo tempo em que as torna visíveis e, portanto, a serem consideradas numa próxima promoção.

3. Assumir um posicionamento em relação às desigualdades encontradas fora e dentro da empresa. Quem assiste a banda passar e diz que não tem nada a ver com isso tende a perder os melhores profissionais para quem arregaça as mangas e entende seu papel na história e na sociedade onde a empresa está inserida. Se há injustiças, porque não corrigi-las? Se há barreiras na sociedade ou dentro da empresa, porque não enfrentá-las?

4. Assumir um posicionamento em relação à diversidade. Ou ela é um valor ou não é. Há quem diga que o valor é o mérito, mas costumam ser os mesmos que discriminam a mulher e escolhem sempre pela parecença consigo mesmo e não pelo mérito. E a diversidade não tem mérito, não é uma característica que pode adicionar valor? Se não acredita nisso, continue no processo de clonagem e produzindo mesmice. Se a empresa acredita no valor da diversidade, deve enfrentar barreiras, promover equidade e ter gosto pela diversidade para compor equipes caracterizadas por ela. Equipes só de mulheres ou só de homens, por exemplo, é um atentado à saúde de todos e um risco para os negócios.

Quatro passos bastam para começar. Mas e o machismo? Ele é a ideologia que sustenta essas relações de desigualdade em todos os sentidos, mas pode não resistir a um ambiente de trabalho inclusivo que promove equidade, oportunidades iguais. O machismo, que mora em todos os lugares, incluindo a cabeça das mulheres, tende a ficar muito incomodado quando vê gestores levando a diversidade a sério.

Cotas ou não cotas para as mulheres? Eu defendo as cotas porque são uma forma de acelerar os processos de mudança. Se as empresas estão atrasadas em relação a uma mudança que já ocorreu na sociedade, com tudo que isso pode impactar outras áreas da gestão empresarial, como a relação com clientes, produtos, serviços, atendimento, marketing, comunicação etc., as cotas podem ser um bom remédio. Mas o que se entende por cotas?

Em geral, há tanta coisa para ser feita antes das cotas que vale a pena considerar os passos acima. Retirar barreiras fazendo uma boa revisão dos processos de gestão é um passo que costuma não causar tantas polêmicas. Por exemplo, diversificar fontes de recrutamento e seleção; colocar critérios claros para gestores e impedi-los de colocar a empresa em risco, seja na contração, na gestão cotidiana ou na demissão; perguntar (não ofende!) porque as mulheres não foram escolhidas e apenas os homens e assim por diante.

Vamos pegar um exemplo. Se há uma vaga para alguém formado em engenharia, comece por cuidar da linguagem. Por que anunciar vaga para engenheiro ao invés de profissional de engenharia ou termos mais neutros? A sociedade é sensível a isso e meninas podem sonhar em fazer engenharia só com essa simples atitude. Vagas masculinas com cara de masculinas e anúncios masculinos vão atrair homens.

Onde a vaga será anunciada? Nos lugares de sempre e da maneira de sempre? Por que não criar um processo diferente, mesmo que seja nos lugares de sempre? Que tal deixar claro para a comunidade o interesse da empresa em diversidade ou, explicitamente, em mulheres? Isso não é crime, pelo contrário, é uma grande contribuição à justiça. Estudantes universitárias de engenharia, das mais diferentes áreas, reclamam mais atenção já que perceberam ao longo dos anos de escola que os homens têm mais vez.

Se há 10 candidatos para a vaga, sendo 9 homens e 1 mulher, como gerenciar as etapas da seleção de forma que essas características dos candidatos sejam consideradas? Em geral, fecha-se os olhos na busca do melhor, sem perceber que o machismo produz seus estragos na almejada meritocracia. Nem quero entrar no debate sobre meritocracia, apenas denunciar que ela é uma falácia quando despreza características dos candidatos, ignora aspectos ideológicos ou culturais que podem estar contaminando a análise de mérito. A discriminação significa ineficiência para as empresas, além dos prejuízos para a sociedade.

Mas a candidata mulher deverá necessariamente ser aprovada? Claro que não, mas só de considerá-la, não fingir que se está em busca de “mão-de-obra” sem olhar para as pessoas que estão ali, já é um passo importante para enfrentar a contaminação dos processos pelo machismo. Na verdade, quando se considera a diversidade um valor, o melhor será escolhido.

Outro exemplo de barreira para as mulheres é quando a excluem a priori em nome da força. Dizem que uma atividade não pode ser para mulheres porque precisa de força. Se o processo de recrutamento e seleção coloca foco na força e não no sexo, com certeza terá abertura para escolher homens e mulheres fortes, esses serem incríveis que carregam até 23 quilos, conforme estabelece a lei. Mais que isso é ilegal e perigoso para a saúde dos empregados e da empresa.

Nestes exemplos acima não houve nenhuma meta, nem cota, nem flexibilidade ou condescendência para com os mais fracos, menos preparados, sem condições de assumir as atividades. Pelo contrário, retirar barreiras aproxima as empresas dos melhores talentos, cria ambiente interno mais inclusivo e respeitoso porque a sensação de justiça alimenta um clima e cultura de inovação e fortalece o engajamento.

Investir em comunicação, constituir grupos de trabalho para conversar e propor soluções sobre questões de gênero, realizar eventos, ter contato com especialistas e referências já existentes no mercado, são exemplos de ações que também não envolvem cotas e podem produzir ótimos resultados.

Não tem paciência e precisa de resultados rápidos? Cotas são a melhor solução. Elas fazem esse caminho acima no sentido inverso. Forçam revisão de processos, a retirada de barreiras, o investimento em transformação cultural, as conversas sobre os estragos do machismo e tudo mais. Não há valorização da diversidade sem ações afirmativas. É discurso vazio que elogia e mantém distante a diversidade. Também não há a construção de uma sociedade melhor apenas com ações afirmativas centradas em cotas. Elas são parte de algo maior e surgem para enfrentar o machismo de maneira certeira, rápida e efetiva.

Gestores de pessoas, executivos, equipes de recursos humanos, gente interessada em negócios bem feitos e sustentáveis, o dia da mulher é um convite para pensar como agir diante de uma empresa percebida como masculina, masculinizada e masculinizante. Pode ser um dia ou semana para dar bombons, flores, mas dar oportunidades iguais é o melhor presente. E é para todos e todas!

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Dia Internacional da Pessoa com Deficiência 2010

Dia Internacional da Pessoa com Deficiência
Reinaldo Bulgarelli (postado em 06 de dezembro de 2010)

A ONU definiu o dia 03 de dezembro como o Dia Internacional da Pessoa com Deficiência, data que lembra ao mundo que todos precisamos trabalhar por uma sociedade mais inclusiva por meio de comportamentos mais inclusivos. A ONU estima que 10% da população mundial possua algum tipo de deficiência.

A diferença se transforma em motivo para desigualdades intoleráveis. Estima-se também que 20% dos pobres do mundo possuam algum tipo de deficiência. São pessoas que possuem algum tipo de deficiência porque são pobres ou são pobres porque possuem algum tipo de deficiência? É um círculo vicioso que uma sociedade inclusiva pode tornar em um círculo virtuoso com algum entendimento sobre a diversidade humana.

A imagem de 1490 do Homem Vitruviano, de Leonardo Da Vinci, ficou em nossa cabeça para definir um padrão de normalidade que não corresponde à diversidade humana. Não somos apenas aquele homem com suas medidas “perfeitas” a definir a forma de construir mundos, realidades, toda uma arquitetura que desconsidera a realidade e cria privilégios para alguns de nós. Chamo de “davincismo” as práticas de discriminação contra pessoas com deficiência porque na base dela está essa desconsideração da diversidade humana. Legislações inclusivas são tidas como geradoras de privilégios. Na verdade, estão corrigindo um passado de exclusão e construindo um futuro de consideração pela diversidade humana.

Privilégio é o que favorece quem se beneficia de uma situação injusta. Incluir não gera privilégios. Deve gerar justiça. Olhar por esse ângulo ajudaria muito no engajamento das pessoas sem deficiência para trabalharem cada vez mais por uma sociedade mais inclusiva no futuro, mas que assume sua responsabilidade em relação ao que herdamos das gerações passadas.

A Convenção da ONU de 2006 consagrou o termo “pessoa com deficiência” e estabeleceu diretrizes globais para essa revisão da postura e das práticas por parte dos cidadãos, dos governos, das empresas, das escolas, enfim, de toda a sociedade. A legislação de cotas para o mundo empresarial completou 19 anos e para o setor público completou 11 anos. Já temos aprendizado suficiente para acertar o passo com a história, mas dependemos ainda a fiscalização e do compromisso de todos para melhorar os indicadores atuais.

Na pesquisa do Instituto Ethos e IBOPE lançado no dia 11 de novembro deste ano, vemos que há apenas 1,5% de pessoas com deficiência nas 500 maiores empresas do Brasil em postos operacionais e 1,3% nos posições de liderança (executivos). Dado mais completo do Ministério do Trabalho e Emprego, por meio do Relatório Anual de Informações Sociais (RAIS) demonstra que está diminuindo o número de pessoas com deficiência contratadas pela lei de cotas. Em 2007 eram 348 mil e em 2009 eram 288 mil. Um número que já era baixo diante da oferta de profissionais e que se tornou ainda mais baixo, mesmo com o crescimento do emprego no país.

O comunicado da ONU no link abaixo traz a ideia de que a inclusão é uma forma de combater a pobreza, ou seja, uma base da pirâmide socioeconômica construída artificialmente na medida em que são desconsideradas as condições das pessoas de ingressarem no mercado de trabalho. É uma base da pirâmide que tem por sustentação o preconceito, a discriminação, as barreiras de todo tipo para manter as coisas como estão. Olhando por outro ângulo, o do valor da diversidade, esses números tão pequenos demonstram que as empresas estão perdendo ao não considerar pessoas com deficiência.

Ao desconstruir barreiras, têm acesso a talentos, trazem a vida como ela é para a realidade das suas relações com a diversidade de públicos ou stakeholders. Pessoas com deficiência trazem consigo conceitos como desenho universal, acessibilidade, flexibilidade e inclusão, todos ricos em aprendizados para melhorar a qualidade dessas relações, produtos, serviços, atendimento e comunicação. As pessoas com deficiência são também clientes e cada empresa que cumpre a cota está ampliando o mercado interno com bases mais justas e efetivas. Artificial é a base da pirâmide que tem por base a discriminação e não a legislação inclusiva, como alguns alegam.

A empresa inclusiva enriquece suas perspectivas, entende e atende melhor as demandas de seus clientes atuais e futuros, contribui para uma sociedade mais justa e, com isso, contribui para a ampliação do mercado interno, o que faz toda a diferença em tempos de fartura e ou de restrição econômica.

Você comemorou ou não o dia 03? Há muitos motivos para comemorar porque é evidente que há uma mudança de paradigma em curso na sociedade e isso se deve aos esforços do movimento social, das lideranças, das organizações governamentais e não governamentais que promovem direitos humanos de pessoas com deficiência.

Há profissionais com e sem deficiência nas empresas que não se subordinam passivamente à mesmice e, com muito carinho e compromisso para com o sucesso dos negócios, assumem uma postura crítica que ajuda na construção do círculo virtuoso que beneficia a todos. Há muito para se fazer, mas a sociedade hoje está navegando em novas bases muito mais democráticas e inclusivas do que há dez atrás. 2011 está chegando e nele teremos outros dia 03 de dezembro para continuarmos desconstruindo a imagem do Homem Vitruviano em nossa mente e construindo imagens mais plurais da diversidade humana. A vida como ela é, bela e rica em diversidade, tem muito mais a nos oferecer do que um padrão dominante, solitário, autoritariamente definindo nossos caminhos.

Rádio ONU: Apoio a pessoas com deficiência ajuda a combater pobreza

sábado, 27 de novembro de 2010

Morre Cláudia Wonder - Um brilho que veio para ficar

Cláudia Wonder, de quem comentei aqui no blog o documentário "Meu Amigo Cláudia", faleceu ontem. Entre tantas lembranças da artista, fico com nossas conversas sobre mercado de trabalho para travestis e transexuais.

Tinhamos na agenda, além do lançamento do filme no circuito comercial, a realização de um evento com empresas para falar de ações afirmativas que garantissem eliminação de barreiras, promoção de equidade e respeito a travestis e transexuais. O tema da identidade de gênero não chegou ainda nem perto da responsabilidade social empresarial, mas é preciso que alguém trabalhe nesta direção. Ela estava animada com essa possibilidade.

Cláudia foi uma artista e tanto. Nem preciso falar nisso porque ontem e hoje há muita gente rendendo homenagens para essa vida cheia de brilho, com muito sucesso e reconhecimentos. Ainda é pouco porque ela foi importante demais para a cena artística brasileira e muitas outras homenagens virão. Seu brilho veio para ficar. Emprestou seu talento para a causa LGBT e fez a diferença, sempre com ações práticas, preocupada com a militância e com o atendimento direto a travestis, a criação de alternativas para quem não quer ter um destino traçado pela sua identidade de gênero.

Nossa conversa parou no ponto em que levantaríamos nomes de várias e vários profissionais travestis e transexuais que trabalham em diversos ramos de atividade, incluindo profissionais liberais, secretárias, sociólogos, serviço público, bancos, varejo, enfim, não apenas na noite e no mundo artístico, palco onde ainda é preciso garantir também mais avanços e muito mais respeito. Convidaríamos essas pessoas para darem seu depoimento sobre o que realizaram e sua visão sobre o mercado de trabalho. Tudo isso para demonstrar que há uma oferta de profissionais trans no mercado e que as grandes empresas poderiam contribuir aos dar visibilidade ao tema, à causa, reconhecer o que já está presente no seu cotiano e ampliar muito, muito mais essas possibilidades.

Nosso diálogo terminou ontem, mas nosso sonho irá adiante, mesmo porque não estamos sozinhos e tudo que faz sentido prospera, mais cedo ou mais tarde, mas prospera, vai adiante com muito mais gente interessada em garantir a TODOS e TODAS um país justo.

Cláudia, minhas homenagens, meu compromisso de ver nossos sonhos irem adiante e meus agradecimentos por tudo que fez pela sociedade brasileira. Seu velório na Secretaria de Justiça do Estado de São Paulo demonstra esse reconhecimento de que você ajudou o Brasil a ser melhor do que era com tudo que fez e por tudo que foi.

Os jovens que hoje expressam sua identidade de variadas maneiras, saibam que muito do que foi conquistado se deve à Cláudia e que ela pode ser fonte de inspiração para todas as demais conquistas que ainda devemos buscar. Ainda não é fácil para uma mulher ou para um homem assumir uma identidade de gênero diferente da que a biologia lhe conferiu no nascimento, mas pessoas como a Cláudia fizeram história ao brilhar na cena artística sem nunca deixar de olhar por toda a sua comunidade e por um país sedento de democracia para TODOS. Sempre me lembro de pessoas como a Cláudia quando em minhas palestras eu repito a pergunta de outra Cláudia, a Werneck: Quem cabe no seu todos?

Enfim, um brilho que veio para ficar se a gente se lembrar dessa luz em tudo que somos e fazemos.

Veja uma das notícias que saiu na grande imprensa sobre Cláudia Wonder, nossa querida amiga Cláudia. G1 - Multiartista Claudia Wonder morre aos 55 anos, em São Paulo - notícias em Pop & Arte

sábado, 20 de novembro de 2010

20 de novembro de 2010 - Dia Nacional da Consciência Negra

Dia da Consciência negra é um bom motivo para voltar aos dados divulgados pela pesquisa do Instituto Ethos e o IBOPE sobre o Perfil Social, Racial e de Gênero das 500 Maiores Empresas do Brasil e Suas Ações Afirmativas, divulgada no último dia 11 e postada aqui no blog Diversos Somos Todos.

A pesquisa de 2010 revelou que há 5,3% de pessoas que se autodeclararam negras em cargos executivos. Na pesquisa de 2007, eram 3,5%. Quando a pesquisa teve início, em 2001, eram 2,6%. Melhorou, mas há muitas grandes empresas desprezando um potencial imenso presente no país.

Há empresas que reclamam do apagão educacional, do apagão de "mão de obra", mas não ainda têm dificuldade de se livrar do racismo entre seus profissionais e o racismo institucionalizado em seus processos de gestão. Apagão de "mão de obra", como disse uma colunista dia desses no O Globo, já diz muito do que se espera dos profissionais: uma mão. E o resto? Empresas que valorizam a diversidade querem gente inteira e não apenas a mão delas. Os termos atrapalham.

Depois de 10 anos de cotas para negros nas melhores universidades, além do ProUni (Programa Universidade para Todos), há uma oferta significativa de profissionais com excelente formação, como atestam as pesquisas. Os cotistas tiveram desempenho melhor que os não cotistas. Goste ou não de cotas, não é possível negar essa oferta, mas ainda se usa como desculpa que não há negros com qualificação para estas 500 empresas. Como assim? Todos os profissionais devem ter curso universitário, incluindo os cargos na base da pirâmide? Evidente que não. Mas há apenas 31,1% de negros mesmo na base das grandes empresas, o que se chamou de quadro funcional na pesquisa do Ethos e IBOPE.

Apertando um pouco mais, há profissionais das empresas que justificam a ausência de negros dizendo que no Brasil não há negros. Como assim? E uma série de desculpas são dadas para se fugir da responsabilidade. Bem verdade que muitas vezes esse discurso que denuncia o racismo no mercado de trabalho deveria gerar responsabilidade e não culpa. Não quero dizer que não haja racistas que estão explicitamente boicando a empresa na qual trabalham e as afastando de talentos negros. Mas, quero dizer que o importante é gerar responsabilidade, movimento em busca de soluções efetivas que aproximem as grandes empresas brasileiras da diversidade, da equidade, da justiça na distribuição de oportunidades. Oportunidades, cabe lembrar, aos empregados e aos empregadores.

Por exemplo, se há uma vaga para a qual concorrem 10 candidatos negros e 90 não negros, qual a tendência se não for tomada nenhuma medida a favor da diversidade? É preciso realizar uma ação afirmativa que garanta visibilidade e equidade aos candidatos negros. Não se trata de ação social, caridade, flexibilidade porque pode ter gente muito mais qualificada entre os 10 candidatos negros, mas a tendência é que a pressa no preenchimento das vagas se contente com os melhores que apareceram na multidão. Ação afirmativa é prática de gestão, de gente que efetivamente faz gestão e não apenas abre as vagas e assiste o que acontece. O mesmo vale para as mulheres e outras chamadas minorias.

Se além da desproporção na oferta de candidatos, ainda houver o filtro do racismo, a coisa piora muito. Para grande parte dos altos executivos, donos ou presidentes de empresas com os quais converso, o racismo é obminável e a diversidade é desejável, mas parece que muitos também não percebem que é preciso gestão para se combater o racismo e para se garantir diversidade.

Dia da Consciência Negra não é dia dos negros, como muitos dizem, mas dia de combater o racismo, de refletir sobre a qualidade das relações raciais e isso envolve negros e brancos. Feliz dia 20 de novembro!