sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Tendências do Voluntariado Empresarial

Estive no Grupo de Estudos sobre Voluntariado Empresarial no dia 05 de outubro de 2011 falando sobre tendências do voluntariado empresarial estratégico. Gostei muito do diálogo com todos e pude compartilhar entendimentos e também questões que inquietam no trabalho junto às empresas clientes da Txai. Veja no blog do Grupo o conteúdo da apresentação e algumas fotos do evento. Reinaldo Bulgarelli

http://grupodevoluntariadoempresarial.wordpress.com/

Tendências de Voluntariado Empresarial – encontro foi sucesso!


O encontro de hoje (5/10) foi inovador e muito dinâmico, as estratégias e tendências foram os temas da ocasião.
O palestrante e consultor Reinaldo Bulgarelli trouxe muitas reflexões, agendas e desafios das tendências do voluntariado empresarial.
O público de 44 pessoas de diferentes empresas e organizações refletiou, questionou e debateu o tema com muito entusiasmo.
Após a exposição, 4 grupos formados e mediados pelo grupo organizador trouxeram para a discussão como as tendências são colocadas em práticas nos programas de voluntariado.
Reinaldo gentilmente cedeu o conteúdo de sua palestra para os participantes: Voluntariado Estratégico 051011 Bulgarelli

Até o próximo encontro no dia 30/11.

domingo, 25 de setembro de 2011

São Paulo lidera denúncias de agressão contra gays, diz estudo
Dados do Disque 100 revelam que, em 39,2% das ocorrências, vítimas são agredidas por desconhecidos

Jornal O Estado de São Paulo
Sexta-Feira, 23 de Setembro de 2011, 22h45
Rafael Moraes Moura

BRASÍLIA - Desconhecidos e vizinhos são os que mais praticam violência contra lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais (LGBT), dentre os casos denunciados ao Disque 100, o Disque Direitos Humanos. A central de atendimento do governo federal foi criada para registrar abusos contra crianças e adolescentes, mas, desde o início do ano, expandiu o serviço para outros grupos, como a população LGBT.

Levantamento da Secretaria de Direitos Humanos (SDH) - ao qual o Estado teve acesso e que será divulgado na segunda-feira - aponta que, em 39,2% dos episódios de violação relatados contra a população LGBT, o agressor foi um desconhecido; em 22,9%, vizinhos; e em 10,1%, os próprios amigos.

De janeiro a julho, o Disque 100 recebeu 630 denúncias contra a população LGBT. As vítimas concentram-se na faixa etária de 19 a 24 anos (43%) e de 25 a 30 anos (20%).

Os casos mais comuns de violência contra gays, lésbicas, bissexuais, travestis e transexuais são os de violência psicológica (44,38%), como ameaça, hostilização e humilhação, e de discriminação (30,55%).

Das vítimas, 83,6% são homossexuais, 10,1%, bissexuais e 4,2%, heterossexuais que sofrem algum tipo de violência ao ser confundidos como gays.

No recorte feito por Estado, São Paulo (18,41%), Bahia (10%), Piauí (8,73%) e Minas Gerais (8,57%) lideram as denúncias - o Rio de Janeiro aparece com apenas 6,03% - por já contar com um serviço semelhante oferecido pelo governo estadual.

"Isso demonstra que a violência de caráter homofóbico tem um forte componente cultural, é a mais difícil de ser enfrentada porque é justamente a que não fica comprovada por marcas no corpo", disse ao Estado a ministra dos Direitos Humanos, Maria do Rosário.

Baixo índice. Do total de denúncias recebidas diariamente pelo Disque 100, as que dizem respeito à população LGBT não ultrapassam 1% - um dos motivos do baixo número seria o fato de o módulo de atendimento específico ainda ser pouco conhecido. "Esses números não refletem a realidade do Brasil, que é ainda pior", afirma Maria do Rosário.

Para o ouvidor Domingos da Silveira, da SDH, os dados do levantamento são reveladores. "Mostram a capilaridade da homofobia, ela vem do interior, das capitais", diz. "Ela está disseminada e se tornou banal."

Resolução. Os casos denunciados ao Disque 100 são ouvidos por uma equipe de teleatendimento e posteriormente encaminhados a órgãos competentes, como o Ministério Público, a Defensoria Pública da União e centros de referência ligados à comunidade LGBT espalhados por todo o País.

Em alguns casos, a própria Secretaria de Direitos Humanos intervém na resolução do conflito.

Foi o que ocorreu com um casal de lésbicas, que denunciou o fato de uma das companheiras não ter conseguido incluir a outra no plano de saúde. Após um ofício da SDH ter sido encaminhado ao hospital em contato com o casal, o caso teve uma resolução.

O presidente da Associação Brasileira de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais (ABGLT), Toni Reis, é enfático na defesa dos direitos da população LGBT.

"Não queremos cargos no DNIT (o Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes, que virou foco de corrupção na administração federal recentemente) nem que nos paguem governanta (em referência a um dos escândalos que derrubaram Pedro Novais do Ministério do Turismo), apenas cidadania", diz. "A homofobia precisa ser criminalizada", defende Toni Reis.
Veja a notícia no site do Estadão:

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

"Existirmos, a que será que se destina?" - Curso Gestão de Organizações do Terceiro Setor

Terceiro Setor
Começa hoje um dos cursos que coordeno no PEC/FGV SP - Gestão de Organizações do Terceiro Setor. Percebo que muitos profissionais vão buscar o curso na esperança de "importar" conhecimentos do mundo empresarial. É interessante e o mundo empresarial tem muito a ensinar para as organizações da sociedade civil, contudo, o inverso também é verdadeiro. Seguem algumas das minhas ideias que coloco para discussão no curso.

1. Há organizações do terceiro setor que incorporam sem críticas o que há de pior no mundo empresarial. Entendem que ser eficiente, efetivo e eficaz é copiar as ideologias, práticas de gestão, métodos e sistemas utilizados pelas empresas. Tornam-se um clone sem alma de algo que também está sendo questionado. Empresas? Quais empresas, que mundo empresarial, quais referências servem e não servem para as ONGs? Enquanto há empresas que querem aprender com ONGs e precisam delas como referência para entender questões como engajamento, mobilização social,intangível, responsabilidade social etc., muitas ONGS tentam fazer o caminho inverso e olham para o passado do mundo empresarial ou o que há de pior nele como fonte de inspiração. As ONGs têm muito a aprender com as empresas e vice-versa, mas é preciso ter uma postura crítica, ‘traduzir’ conceitos e práticas e não assimilar mecanicamente e repetir sem inovação o que deve ser superado.

2. A sustentabilidade mora na qualidade das relações. As pessoas determinam e são determinadas pela qualidade das relações que envolvem, por sua vez, processos, sistemas, condutas, formas de ser e de fazer negócios. Devemos e podemos buscar respostas para evitar lesões aos direitos humanos, adicionar valor, reduzir custos, promover a responsabilidade social e criar meios para que a sociedade alcance patamares mais sustentáveis.

domingo, 14 de agosto de 2011

1o Seminário de Políticas Públicas de Promoção da Igualdade Racial

Dia 25 de agosto, na sede da Secretaria Municipal de Desenvolvimento Econômico e do Trabalho, das 8h30 às 13h, um conjunto de organizações realizará o 1º. Seminário de Políticas Públicas de Promoção da Igualdade Racial – Geração de Trabalho, Emprego e Renda na Cidade de São Paulo.
A Txai é parceira técnica do evento e acredito que será um momento muito especial para melhor entendimento dos desafios e possibilidades presentes hoje na questão do negro na sociedade brasileira. Na plateia teremos pequenas, médias e grandes empresas, ONGs, organizações governamentais, universidade, num momento raro de articulação de todos os setores na busca de soluções para garantir equidade nas relações raciais.

No início do dia, além da abertura do Secretário Marcos Cintra, teremos um panorama geral da situação do negro no país, oferecido pelo economista Marcelo Paixão. Também teremos um panorama das ações governamentais e das implicações do Estatuto do Negro, em apresentação de Maria Aparecida de Laia, coordenadora da CONE – Coordenadoria de Assuntos da População Negra da Prefeitura de São Paulo. Em painel mediado por mim, um conjunto de organizações representativas da promoção da igualdade racial no âmbito do emprego e renda compartilhará suas práticas e visões, abrindo para questões da plateia.

Participe e divulgue o convite e a programação em anexo para sua rede de relações.

Clique na imagem para ver em tamanho maior, salvar ou imprimir.

Abraços! Reinaldo

domingo, 7 de agosto de 2011

Seis Aulas de Dança em Seis Semanas - uma peça sobre diversidade etária e muito mais

“Seis aulas de dança em seis semanas”
Reinaldo Bulgarelli, 07 de agosto de 2011

Hoje se fala tanto de Geração Y e muitos estereótipos lhe são atribuídos na tentativa de descrever uma geração inteira de pessoas. Não funciona muito porque esquecem de traduzir o que foi produzido nos EUA para a realidade brasileira.

Mesmo as produções locais reúnem alhos e bugalhos. Num país onde faz toda a diferença o local onde você vive, sua cor de pele, raça, se você é homem ou mulher, falar de uma geração no singular é uma inutilidade para os gestores e um desserviço para os tais Y.

Mas, eu gosto mesmo é de me debruçar sobre a questão da diversidade etária. Mais importante do que estas tentativas de “fotografar” os X, Y, Z e Baby Boomers (a expressão em inglês denuncia a falta de tradução de que falei acima, não?), gosto de entender quais são as limitações e as possibilidades que o encontro de diferentes gerações pode oferecer para a qualidade das relações numa equipe. O foco na qualidade das relações parece ser mais interessante do que o retrato 3x4. A vida é mais complexa, rica, cheia de desafios e com as possibilidades de transformação de todos e do todo onde acontecem as interações.
Além disso, ninguém pode ser reduzido a um dos seus marcadores identitários, como ter nascido numa determinada época. Os marcadores são importantes quando abordados de maneira sistêmica, interagindo com orientação sexual, classe social, estilo de vida e tantos outros. Se fosse possível isolar a praga do preconceito num único tipo, por exemplo, a vida seria muito sem graça. O divertido é perceber que a qualquer momento podemos nos defrontar com algo novo que nos desafia a ultrapassar fronteiras ou muros que nós mesmos erguemos ou mantemos no jardim.

Tudo isso está na peça “Seis Aulas de Dança em Seis Semanas”, de Richard Alfieri, direção de Ernesto Piccolo e realização do MESA 2. A convite do Fernando Cardoso, do Mesa 2, fui assistir a peça na última sexta-feira, dia 05 de agosto. A peça fica em cartaz até início de outubro. Duas pessoas, de diferentes gerações, se encontram em torno de uma tarefa comum: aulas de dança. Descobrem o que têm em comum e o que não têm, mas constroem uma relação rica exatamente nesta combinação da igualdade e da diferença, do que há de semelhante e divergente.
Recomendo a todos aqueles que estudam o tema da diversidade etária no ambiente de trabalho e, claro, para quem quiser se divertir numa peça que faz rir e chorar. Difícil que alguém não se identifique com estes dois personagens interpretados por Suely Franco e Tuca Andrada. Assim é a vida. Difícil que ninguém encontre no outro, por mais diferente que seja, algo em comum. Sai da peça, com meu amigo Luiz Paulino, pensando nas muitas histórias vividas que aqueles minutos conseguiram colocar no palco.

quarta-feira, 27 de julho de 2011

Decálogo da Diversidade - Reinaldo Bulgarelli


Reinaldo Bulgarelli, lançamento do Diversos Somos Todos, 2008
10 IDEIAS SOBRE VALORIZAÇÃO DA DIVERSIDADE
Reinaldo Bulgarelli, julho de 2011
Para facilitar a compreensão sobre um conceito tão complexo, criei dez afirmações ou ideias que expressam meu entendimento sobre valorização da diversidade, sua importância e seu sentido. 
1.     A diversidade é uma característica essencial da vida e, portanto, fonte de riqueza.
2.     A diversidade pode ser entendida como o conjunto de diferenças e semelhanças que nos caracterizam.
3.     Diversos somos todos e não apenas alguns de nós, estejamos ou não em situação de privilégio em função de algum marcador identitário.
4.     Valorizar é considerar a diversidade na maneira de ser, de fazer e de se relacionar.
5.     As pessoas têm valor com suas características ou marcadores identitários e não apesar deles, sejam eles quais forem.
6.     Nossas relações e as soluções para os desafios da vida podem se empobrecer quando nos conectamos apenas pelas semelhanças e ignoramos, negamos ou sumimos com as diferenças.
7.     Ser indiferente às diferenças não ajuda a melhorarmos como comunidade humana.
8.     Respeitar não é fingir que a diferença não existe, mas é considerar a diversidade como se apresenta para podermos lidar com os possíveis conflitos e inovações que as relações humanas proporcionam.
9.     Inclusão efetiva é a que se estabelece em via de mão dupla, no diálogo, no enfrentamento dos conflitos e não na indiferença, negação ou supressão deles.
10.  Valorizamos a diversidade porque é a coisa certa a ser feita e, ao promove-la, oferece as condições para nos aproximarmos mais, cooperarmos mais e encontrarmos juntos melhores soluções para os desafios da vida.

quinta-feira, 7 de julho de 2011

O crescimento e o desenvolvimento

Crescer é uma coisa, desenvolver é outra bem diferente. Estamos crescendo, mas os dados com recortes de raça/cor, gênero, deficiência e o inexistente recorte por orientação sexual, demonstram um país careta, atrasado, com preconceitos atrapalhando os negócios, a felicidade das pessoas e, portanto, o desenvolvimento sustentável. Onde chegaremos se nem todos estão indo junto? Reinaldo Bulgarelli

 
Enviado por Míriam Leitão e Alvaro Gribel - 05.07.2011
|15h00m
COLUNA NO GLOBO
Números que contam

Quando se quer ter uma dimensão da crise espanhola, costuma-se usar o número do desemprego: 20%. Quando se quer mostrar que o Brasil está muito bem, um dos dados exibidos é a menor taxa de desemprego da série iniciada em 2002. Em maio, ela foi de 6,4%. Naquele mesmo mês, para uma jovem de 18 a 24 anos, negra, a taxa brasileira ficou em 20%.

O mercado de trabalho brasileiro está num bom momento, sem dúvida. Há maior formalização, maior oferta de oportunidades, a renda está em alta e os empresários estão reclamando que falta gente para contratar. Mas, como tenho sempre registrado aqui, ele não é igual para todo mundo. Ainda que esteja ficando melhor para todos, as distâncias permanecem marcantes.

Veja os dois gráficos abaixo preparados com dados fornecidos pelo IBGE na Pesquisa Mensal de Emprego (PME) de maio. Um homem branco tem taxa de país com pleno emprego, 4,2%; mas uma mulher negra (preta e parda na classificação do IBGE) tem taxa pior do que os Estados Unidos, 9,5%. Se a pessoa, de qualquer cor ou sexo, for jovem, entre 18 e 24 anos, o número chega a 13,5%. Se for jovem, mulher e negra, aí é que a taxa chega a ser espanhola, 20%.

Um leitor mandou e-mail considerando como possível explicação para o desemprego alto de mulheres negras e jovens o “absenteísmo causado pela licença-maternidade”. Na verdade, até para os homens a taxa nesta faixa etária é alta. É alta para todos dessa idade, mas é incrivelmente elevada para jovens negras.

O mercado de trabalho brasileiro está todo cheio de coisas estranhas como mostram as taxas de desemprego por faixa de instrução. Elas são menores para quem tem pouca ou tem muita instrução; o perigo é ficar no meio. Com até um ano de estudo, a taxa é de 3,2%; até três anos, 3,3%. Com ensino universitário é de 5%. Mas com oito a dez anos de estudo é de 7,9%. Para mulher negra $faixa de escolaridade é de 13,2%.

Entre pessoas com baixa escolaridade, as diferenças também estão presentes. Se for homem branco, de um ano a três anos de estudo, o desemprego é 1,9%; se for mulher branca, é 5,5%; se for mulher negra, é 6,7%. Se tiver de oito a dez anos de escolaridade, os homens brancos têm 5,8% de desemprego; as mulheres brancas, 9%; as mulheres negras (pretas e pardas), 11,1%.

O mercado de trabalho prefere homens brancos e que já tenham concluído o período de treinamento. Quem não concluiu o ensino médio, quem está procurando o primeiro emprego, mulheres, principalmente as negras, amargam número de país em crise, mesmo no nosso melhor momento.

Alguns números não querem dizer o que parecem, precisam ser explicados; mas os da taxa desagregada de desemprego querem dizer exatamente o que dizem: o mercado de trabalho no Brasil, mesmo num momento em que tantos empresários se queixam de falta de gente, se dá ao luxo de preferir e preterir. O mercado prefere homens brancos, deixa em segundo plano mulheres, tenta evitar os muito jovens e cria ainda mais barreiras para mulheres negras. Pode-se explicar o fenômeno com qualquer contorcionismo, mas seria preferível ver o que os números contam. Eles contam que o mercado de trabalho no Brasil discrimina. E este seria o melhor momento para superar essas barreiras, afinal, as empresas se queixam de “apagão de mão de obra”. É a melhor hora para a inclusão.

sexta-feira, 1 de julho de 2011

Sustentabilidade, liderança e diversidade

Atendendo a pedidos, segue aqui artigo publicado no site da Ideia Sustentável (http://www.ideiasustentavel.com.br/lideres/artigos/liderancas-e-diversidade/ ) que não está no ar momentaneamente.

Ao lado, foto do livro "Conversas com Líderes Sustentáveis", de Ricardo Voltolini


Lideranças e diversidade

Reinaldo Bulgarelli, junho de 2011.
Sustentabilidade é um tema que possui uma agenda em construção. Tem horas que essa agenda pende muito para o lado ambiental. Eu teimo em puxar também para o lado cultural e coloco o tema da valorização da diversidade na mesa. Faço isso faz tempo. Na ECO 92, por exemplo, eu lá estava coordenando um dos fóruns paralelos que tratava de desenvolvimento social. Nos documentos da ONU, como este de 1992, a questão da diversidade está sempre acompanhando a questão da sustentabilidade.

Teimo e gosto de teimar porque entendo que não há sustentabilidade sem valorização da diversidade. Entendo que a tal sustentabilidade que estamos discutindo, praticando e construindo mora na qualidade das relações. É um cuidar da qualidade das relações da pessoa consigo, com os outros, com o todo. É o cuidado da organização com a qualidade das relações com seus stakeholders.

Um dos elementos dessa relação de qualidade é a valorização da diversidade, o gosto pela vida diversa como ela é, o respeito por tudo e por todos. Tudo que tem vida tem diversidade. Organizações que gostam da vida, gostam da diversidade e vice-versa. Organizações que rejeitam a diversidade parecem se organizar em torno da negação da vida ou das fantasias de que estão desconectadas do tempo e lugar onde produze e recebem impactos positivos e negativos. Organizações que não gostam da vida parecem possuir um cabide para se pendurar lá fora a individualidade de cada um. Entra apenas a “mão de obra” e não a pessoa. Neste caso, a diversidade é oprimida, negada, rejeitada porque a vida não é bem-vinda. Taylor vive!

Neste momento da história da vida humana no planeta, nunca foi tão necessário sermos inclusivos. Pessoas inclusivas em organizações inclusivas estão mais preparadas para lidar e contribuir na construção de soluções para os desafios atuais e futuros. Uma pessoa, por melhor que seja sua formação, não dará conta sozinha de encontrar as respostas para estes desafios. Precisamos uns dos outros, do diálogo, da cooperação, da construção colaborativa para dar conta deste mundo em acelerado e profundo processo de transformação. A mudança mudou, como dizem alguns. Está evidente que práticas elitistas e que discriminam não podem ajudar neste momento em que precisamos ouvir muitas vozes para tomar boas decisões.

Minha experiência com os líderes empresariais neste tema tem sido muito rica. Aqueles que se interessam pela valorização da diversidade na gestão empresarial são gente, gostam de gente e dão importância a ambientes inclusivos, respeitosos, plurais e verdadeiramente comprometidos com a erradicação de práticas de discriminação. Eles dão exemplo de que na empresa não pode haver um cabide para deixar a vida do lado de fora. Utilizam fatos da sua vida, sua características, sua história, para falar de aspectos importantes da gestão, da maneira de conduzir os negócios e os relacionamentos com todos.

Há algumas situações que me revelaram a dificuldade de alguns presidentes em lidar com o tema da diversidade e, assim, com os temas da vida. Algumas situações me fizeram perceber a diferença entre estar na presidência e ser uma liderança. Vou compartilhar essas situações porque podem inspirar alguma reflexão.

Certa vez, um presidente me convidou para participar do evento anual da empresa. Ele falaria sobre o tema para toda a sua equipe de gestores e queria que minha apresentação provasse que diversidade adicionava valor aos negócios. Queria números, pesquisas e evidências irrefutáveis. Eu entendi seu apelo, mas a intuição me vez devolver o pedido para que ele dissesse por que acreditava na diversidade. Foi um depoimento marcante sobre suas experiências em equipes plurais e que ele acabou dividindo com todos no evento. Diversidade era um valor para ele, assim como era para a empresa. Evidente que diversidade faz bem para os negócios, mas gostei de ver o líder maior da empresa compartilhando sua experiência e sua crença no valor da diversidade. Por que é preciso justificar com números e atrelar a dinheiro o que faz parte da vida e da qualidade das relações? Se não der lucro, podemos pisar no valor da vida e da diversidade?

Outro presidente se viu numa situação difícil. Um colaborador foi demitido pelo gestor numa situação de evidente discriminação. A empresa foi colocada em risco e o discurso deste presidente de que a diversidade era um valor para ele e para a organização estava sendo testada. Fui consultado e, como outros colaboradores da empresa, defendemos que a demissão fosse revertida. Ganhou a turma que defendia a irreversibilidade de uma demissão para “não passar por cima da autoridade de um gestor”. Se a autoridade é usada para discriminar, pouco importava. Foi um erro que custou a credibilidade do líder e a empresa levou anos para reconquistar a confiança da equipe trabalhava no tema. Diversidade não pode ser uma declaração de intenção, mas uma prática cotidiana que transforma presidentes em líderes para todos os seus colaboradores e não para alguns deles. Confiança é algo que se constrói no caminho que transforma quem tem poder em um líder autêntico.

Houve um presidente que também queria trocar ideias comigo sobre diversidade e sua importância para os negócios da empresa. Como aprendi com aquele primeiro presidente que citei, fui fazendo perguntas para que ele fizesse o vínculo com sua própria história de vida. Era uma pessoa muito especial e esse vínculo foi imediato, servindo de base para seu diálogo dentro e fora da empresa, seja para tratar da questão da mulher, dos negros, homossexuais, pessoas com deficiência, entre muitas questões nas quais essa empresa avançou e bastante. Aprendi com ele que um líder pode representar na aparência o padrão dominante e ter a sensibilidade, o compromisso e a coragem de expressar suas crenças, experiências e sentimentos para dialogar com todos, enfrentar a discriminação e construir um ambiente inclusivo. Todos podem e devem valorizar a diversidade.

O presidente de um grupo também quis minha assessoria para implantar o programa de valorização da diversidade, formando um comitê com os presidentes e diretores de recursos humanos. Ele mesmo me alertou que o seu time era muito resistente à diversidade e discutimos a estratégia para lidar com isso. No entanto, a resistência persistiu, apesar das situações envolvendo perdas imensas de recursos com processos por discriminação e assédios. O presidente se aposentou logo no início dos trabalhos e um membro da família proprietária do grupo assumiu a direção, também se envolvendo no programa. Os dois não tiveram coragem de enfrentar as resistências do seu time e era evidente que isso expressava uma gestão descomprometida com os valores e estratégias da organização. Um dos presidentes, por esta razão, foi demitido muito tempo depois, deixando muitos estragos no caminho. Aprendi que ter poder nem sempre é sinal de liderança se não há coragem para enfrentar os subordinados naqueles aspectos que contrariam a identidade organizacional, sua visão, missão, valores e princípios. A valorização da diversidade era uma ótima oportunidade para esse alinhamento, mas preferiram conviver com as resistências e seus estragos.

Houve um presidente que me deixou até assustado com sua sinceridade. Ele me convidou porque percebia que a empresa estava presente no mundo, mas o mundo não estava presente na empresa, com um time de líderes que era muito parecido em muitos aspectos: todos eram homens, brasileiros, da mesma região do país e formados em engenharia. Nunca tinha visto tanta humildade, um dos requisitos fundamentais dos líderes, creio eu, sobretudo frente aos desafios que a sustentabilidade nos apresenta. O resultado veio ao longo de alguns anos e a liderança deste presidente foi fundamental para uma renovação gradativa da empresa em termos de maior diversidade entre seus colaboradores e gestores. Hoje, quando almoço na empresa, vejo pessoas de diferentes lugares do mundo e o clima expressa o gosto pela diversidade e pela interação entre todos.

Tem uma empresa na qual eu era responsável por um workshop sobre ambiente inclusivo e respeitoso. Na fala da empresa, respeito era um dos valores. Assim,, era essencial e critério para promoções. Foi preciso conviver alguns anos para perceber que o discurso acontecia na prática. A empresa prefere líderes alinhados com seus valores a promover aqueles com histórico de reclamação por trato desrespeitoso. Todos dão resultados, senão não seriam cogitados para a promoção, mas a escolha é por aqueles que dão resultado respeitando as pessoas. O presidente e seus superiores praticam o que defendem e o que está no discurso da empresa. O ambiente inclusivo e respeito que há nesta empresa, valorizando a diversidade e a interação criativa e inovadora entre as pessoas, fala mais alto do que qualquer discurso. Aprendi com eles que valorizar a diversidade é uma escolha. É possível ganhar dinheiro sem respeito às pessoas, mas eles escolheram ganhar dinheiro respeitando a todos.

O caminho da sustentabilidade é uma escolha realizada pelos líderes. Muitos, aliás, se tornam líderes ao realizar essa escolha de integrar a sustentabilidade na maneira de ser. Podemos ameaçar de morte com dados catastróficos ou demonstrar que estrategicamente a sustentabilidade faz todo sentido, amplia os lucros e garante sucesso. É verdade e é bom convencer demonstrando vantagens reais e tangíveis, mas a construção da sustentabilidade é ética ou não é sustentabilidade. Antes de ser uma estratégia, é um valor, está na identidade, na maneira de ser, de definir o que é felicidade e sucesso. Ser ético desde que dê lucro não é ético. Tem que dar resultado com ética e não ter ética apesar do resultado ou ter resultado apenas da ética.

Relações de qualidade não são construídas com oportunismos, com gente interesseira e a depender do lucro ou dos bons momentos. E quando as coisas vão mal, pode tudo? Ou é um modo de ser e de viver, de se relacionar e de fazer as coisas ou desmorona na primeira crise, barreira ou polêmica. A qualidade das relações passa pelo respeito incondicional pela vida.

Esses líderes da sustentabilidade que temos no nosso país e no mundo fizeram escolhas e inspiram todos à sua volta a realizar escolhas na direção da vida. Não colocam em questão se é para buscar ou não o sucesso da organização porque isto está dado. Querem ter sucesso na vida e com a vida. Portanto, acabam reinventando o sentido do sucesso de forma a tecê-lo na rede de relações interdependentes em que todos nós estamos inseridos, na qual e da qual vivemos.

O que os líderes me afirmam quando perguntados sobre o porquê da diversidade é que ela melhora a qualidade das decisões. Já imaginou não ter a diversidade como meio e fim para a realização de boas escolhas? Com diversidade, as relações são de qualidade e só podem gerar boas escolhas. Gandhi disse que não “não há um caminho para a paz, a paz é o caminho.” O mesmo se pode dizer da sustentabilidade. A sustentabilidade é o caminho, está no jeito de ser, de enfrentar os desafios, de construir o futuro de maneira inclusiva e respeitosa para com todos, promovendo interações que ampliem os horizontes e as possibilidades por ouvir muitas vozes e considerar muitas perspectivas. A sustentabilidade é de todos e para todos ou não é sustentabilidade. É a mesmice disfarçada de futuro. Líderes são fundamentais para enfrentar a mesmice e explorar, com visão positiva, as muitas oportunidades que a vida oferece. 

*Reinaldo Bulgarelli é sócio-diretor da Txai Consultoria e Educação.

Plataforma Líderança Sustentável - Sustentabilidade, Liderança e Diversidade

Liderança é diversidade

No dia 02 de junho foi lançado o livro "Conversas com Líderes Sustentáveis", de Ricardo Voltolini, Editora Senac-SP. É um livro muito importante para o movimento de sustentabilidade e responsabilidade social empresarial. No mesmo dia foi lançado, com os dez presidentes abordados no livro, o Projeto Liderança Sustentável 2011, pela consultoria Ideia Sustentável. Essa plataforma pretende realizar encontros com líderes para tratar de sustentabilidade e responsabilidade social empresarial.

De acordo com Ricardo Voltolini, a Plataforma visa "identificar, inspirar e conectar jovens líderes de todo o País, oferecendo-lhes a possibilidade de trocar experiências, receber informação relevante, conhecer as histórias dos líderes de sustentabilidade mais importantes do Brasil e começar a escrever as suas próprias. Esses encontros serão registrados para posterior disseminação. Haverá ainda um portal específico, ligado ao Portal Ideia Sustentável, no qual os líderes poderão acessar estudos e pesquisas importantes sobre o tema, encontrar pares e registrar seus individual cases”.

Atendendo a convite do parceiro Ricardo, escrevi no site da Plataforma sobre liderança, sustentabilidade e diversidade. Conto algumas experiências com lideranças de empresas interagindo com o tema da sustentabilidade para pensar em ética e valores que podem ser importantes para quem quer fazer a diferença no mundo dos negócios.

http://www.ideiasustentavel.com.br/lideres/artigos/liderancas-e-diversidade/

domingo, 26 de junho de 2011

Mulheres negras e desemprego, por Miriam Leitão

DESEMPREGO: Dados mostram barreiras contra mulheres negras
Publicado no Portal do Geledés - Sábado, 25 Junho 2011 11:31
 
Por Mirian Leitão

É para se comemorar a taxa de desemprego em 6,4%, a menor para o mês de maio desde 2002, mas quando olhamos com atenção os dados do IBGE chegamos à conclusão de que o mercado de trabalho brasileiro continua bastante desigual, discriminando mulheres, negros e jovens. Os números falam por si.

Enquanto a desocupação está em 6,8% entre as mulheres brancas, por exemplo, acima da média geral e da taxa registrada entre os homens com essa mesma cor de pele (4,2%), ela salta para 9,5% entre as mulheres pretas ou negras, segundo os dados do IBGE divulgados hoje.

Mas esses números podem ser ainda mais cruéis, quando olhamos para o desemprego entre as jovens negras de 18 a 24 anos de idade: subiu para 20% em maio - em abril, estava em 19,6%, mais do que o triplo da taxa média atual. No caso das mulheres brancas com a mesma faixa etária, está em 12,6%. Como se vê, as jovens negras têm bastante dificuldade para encontrar uma vaga de trabalho nesse exigente e contraditório mercado brasileiro.

Olhando as tabelas do IBGE, notamos que o desemprego, como sempre, continua baixo entre os homens (4,9%) e mais alto entre as brasileiras (8%). Mais elevado também entre os que estudaram mais, por incrível que pareça.

E apesar de muitos empresários reclamarem da falta de mão de obra no Brasil, os números que mostram a desocupação entre os jovens indicam que há um exército de desempregados entre 18 a 24 anos, deixado de lado por falta de qualificação ou experiência. Entre eles, o desemprego está em 13,5%, um pouco abaixo da registrada em abril (15%), mas bem acima da média.

sábado, 28 de maio de 2011

O kit contra a homofobia e a educação

O kit homofobia e a educação

por Reinaldo Bulgarelli, 15 de janeiro de 2011 (para Portal Guia do ABC)

Uma pesquisa divulgada em 2009 me chamou a atenção e venho considerando seus resultados no meu trabalho. A matéria, na Revista Nova Escola, da Editora Abril (http://revistaescola.abril.com.br/avulsas/225-emdia.shtml), dizia o seguinte:
Diversidade não é um tema bem-vindo entre alunos, pais, professores e diretores. Esse é um dos apontamentos do Estudo sobre Ações Discriminatórias no Âmbito Escolar, realizado no primeiro semestre de 2009 pela Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe), em convênio com o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep). Idade, etnia, orientação sexual e de local de origem, entre outras características, incomodam a maior parte do público analisado em 500 escolas públicas de todo o país (veja o gráfico à esquerda). Além de a abrangência da intolerância assustar, é preocupante encontrar as necessidades especiais como o principal alvo de repulsa, ainda mais com a crescente inclusão de alunos com algum tipo de deficiência nas escolas regulares. Nessa categoria, o índice geral de preconceito é de 96,5% e alcança 96,8% dos alunos e 87,4% dos docentes.”
A pesquisa mostra que 87,3% têm preconceitos contra homossexuais: “A distância em relação a pessoas homossexuais foi a que apresentou o maior valor para o índice percentual de distância social, com 72%, seguido da distância em relação a pessoas portadoras de deficiência mental (70,9%), ciganos (70,4%), portadores de deficiência física (61,8%), índios (61,6%), moradores da periferia e/ou de favelas (61,4%), pessoas pobres (60,8%), moradores e/ou trabalhadores de áreas rurais (56,4%) e negros (55%). Mais preocupante é o fato que o preconceito e a discriminação muitas vezes resultam em situações em que pessoas são humilhadas, agredidas ou acusadas injustamente simplesmente pelo fato de fazerem parte de algum grupo social específico. Nota-se que estas práticas discriminatórias no ambiente escolar tem como principais vítimas os alunos, especialmente negros, pobres e homossexuais, com médias de 19%, 18% e 17% respectivamente para o índice percentual de conhecimento de situações de bullying nas escolas entre os diversos públicos pesquisados.”

A escola tem alguma responsabilidade sobre essa realidade? É um espaço onde podemos aprender a conviver na diversidade que nos caracteriza a todos? Essas questões levam também à pergunta sobre onde o preconceito e a discriminação começam e onde eles terminam? Seria ótimo identificar um lugar e definir responsabilidades pontuais, mas a verdade é que estamos mergulhados numa cultura que alimenta preconceitos contra alguns de nós. É um circulo vicioso e precisa ser enfrentado por todos em todos os lugares. O que estamos combatendo e o que queremos?
Preconceito é uma ideia preconcebida sobre alguma coisa. Pode ser positivo ou negativo, mas é sempre algo ruim porque nos afasta de conhecer e até de conviver com outras pessoas e realidades. Se pudéssemos fazer uma divisão didática, o preconceito é um pensamento enquanto a discriminação é um ato. A pesquisa mostra como os preconceitos resultam em humilhações, agressões e acusações injustas, ou seja, em práticas de discriminação. Eles não ficam na cabeça e acabam determinando a maneira de agir. É possível educar as pessoas por meio de diálogos, informações, acesso a conhecimento para que tomem uma atitude e modifiquem sua postura preconceituosa, mas é impossível dizer que podemos erradicar o preconceito. Já a discriminação nós podemos dizer que queremos erradicar por meio de normas claras e punição a quem as pratica.

O kit contra a homofobia é uma das respostas pensadas para enfrentar o que mostrou a pesquisa em relação aos homossexuais. Ele pode contribuir no campo da educação de alunos, professores ou familiares. Ele é bom, bem feito, mal feito? Parece que alguns críticos não estão interessados na discussão sobre a qualidade do material, mas em defender que ele não exista porque a homossexualidade não deveria existir. Bom, aí não há discussão no campo democrático porque estas pessoas alimentam a violência contra homossexuais, vivenciada de diferentes maneiras, desde a negação de sua identidade até o assassinato ou extermínio.
Não é fácil viver num país democrático, mas alguém que defenda o extermínio do outro por ser diferente do que acredita ser o único padrão a ser respeitado, precisa encontrar limites. É a intolerância contra a tolerância, como falamos no primeiro artigo (Diversidades) sobre os limites e a importância da Declaração Universal dos Direitos Humanos. Tirando os excessos e radicalismos não democráticos e que atentam contra a Constituição e os direitos humanos, que bom que temos um material para ser discutido na sociedade sobre como iremos nos educar para conviver com a diversidade sexual.

Tem horas que a informação pode fazer a diferença sobre o nível de respeito que um segmento tem na sociedade. Neste caso, falar do tema orientação sexual, tirá-lo da invisibilidade e propor reflexão na sala de aula e fora dela pode ser um ótimo caminho para que os homossexuais sejam mais respeitados do que são hoje. E você, como tem se educado neste tema? Como está educando seus filhos? Eles serão aqueles que aparecem no noticiário policial por espancar ou assassinar homossexuais ou são aqueles que respeitam e trabalham para que todos sejam respeitados?

Site Portal Guia do ABC: http://www.portalguiaabc.com.br/category/diversidade-gls
Site IG: Unesco dá parecer favorável a material contra homofobia: http://ultimosegundo.ig.com.br/educacao/unesco+da+parecer+favoravel+a+material+contra+homofobia/n1238103119025.html

quarta-feira, 25 de maio de 2011

Artigo de Miriam Leitão sobre falecimento de Abdias do Nascimento

O Globo - Enviado por Míriam Leitão - 24.05.2011 - 16h08m

Homenagem

Uma vez, numa entrevista que me concedeu, Abdias Nascimento disse que ele foi preso, enquadrado na Lei de Segurança Nacional, viveu no exílio por 10 anos, sem ter nunca integrado qualquer partido clandestino de combate à ditadura.
- Tudo o que eu fiz foi combater o racismo.
Era uma forma de mostrar que esse tema sempre foi tratado como inconveniente. Na ditadura, era proibido. Isso era subversivo o suficiente para os ditadores da época. Hoje ainda é delicado e difícil. Sua vida foi dedicada a tratar desse assunto intratável.
Como jornalista, teatrólogo, escritor, cineasta, artista plástico, senador, militou na mesma causa: construir um país realmente multiracial com a derrubada, de fato, de todas as barreiras que impedem a ascensão dos negros no Brasil.
Não um país que finge não ver as diferenças para proclamar a igualdade, mas o que constrói as pontes fortalecendo a autoestima dos pretos e pardos brasileiros e abrindo oportunidades. Foi por esse Brasil que Abdias lutou.
Abdias abriu espaços notáveis na cultura brasileira para essa sociedade com a qual sonhou por tanto tempo. Quilombo era um jornal dos anos 1950 que abriu a discussão do combate ao racismo. O Teatro do Negro foi outra iniciativa pioneira que revelou inúmeros talentos para a dramaturgia brasileira, numa época em que atores brancos pintavam o rosto de preto para fazer os papéis de negros. Na militância foi um dos fundadores do Movimento Negro Unificado.
As conversas com ele e sua mulher Elisa Larkin, americana de nascimento, eram sempre ricas de reflexões sobre velhos vícios do Brasil, como o de negar o problema.
Nos últimos anos ele viu duas notícias. A boa é que é visível a formação da classe média negra e do aumento do poder de pretos e pardos no Brasil. A ruim é que as distâncias permanecem enormes e uma parte do país prefere não discutir o tema, insiste em ficar em atalhos que fogem da questão central. A desigualdade racial ainda é enorme no Brasil.
Outro dia fui ao Sindicato dos Jornalistas do Rio no lançamento do Prêmio Abdias Nascimento. Sindicato ao qual ele se filiou em 1947.
Ele já estava doente, mas a cerimônia aconteceu ainda assim. Lá eu disse que Abdias, que tinha 97 anos, foi precursor e persistente no mesmo sonho ao longo da vida inteira: a de combater o racismo em todas as suas formas.
Fará falta Abdias, mas quem sonha com um Brasil de menos desigualdades, sabe que ele combateu o bom combate.
http://oglobo.globo.com/economia/miriam/posts/2011/05/24/abdias-nascimento-uma-vida-inteira-de-combate-ao-racismo-382348.asp

terça-feira, 24 de maio de 2011

Abdias do Nascimento faleceu hoje, 24 de maio de 2011

Abdias do Nascimento
Por Reinaldo Bulgarelli, 24 de maio de 2011

Eu era um adolescente de 16 anos em 1978 quando ajudei meu amigo Renato Wagner Oliveira Nascimento a fundar o grupo de jovens da Igreja Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos de São Paulo. Foi inevitável que passássemos a pensar a questão do negro e das relações raciais, mesmo porque a cidade, o país o mundo estava discutindo a questão racial. Na TV, o seriado Raízes levantava a questão e a moral dos negros. O black power não era apenas um penteado, mas uma maneira de ser e olhar o mundo.

Eu e Renato íamos a manifestações do movimento negro nas ruas do centro de São Paulo. Algumas, como o treze de maio, aconteciam na própria Igreja do Rosário, com a imagem da Mãe Preta no Largo do Paissandú servindo de referência para os protestos contra a data.

Meu grande encontro com a questão, do ponto de vista intelectual, foi na escadaria do Teatro Municipal. Lá Abdias do Nascimento discursava numa manifestação do Movimento Negro Unificado, que surgia exatamente neste mesmo 1978. O que ele dizia fazia sentido a tudo que eu mesmo experimentava como branco e como branco na convivência com amigos negros. Não era uma questão apenas de entender, mas de sentir. Não era uma questão de concordar com tudo, mas de ver alguém com a alma exposta naquilo que dizia e fazia e gesticulava. E como gesticulava o Abdias.

Abdias virou minha referência. Depois veio o União e Consciência Negra e outros espaços para pensar a questão das relações raciais. Tudo isso me moldou, fez pensar o que era ser branco numa sociedade racista, qual era o meu papel, o que poderia e deveria fazer e assim tem sido, em constante reflexão sobre isso.

Gostatamos tanto de citar Mandela, com toda razão, mas Abdias era nosso Mandela, com denúncias contundentes e anúncios de um futuro sonhado que servem de horizonte para muitos. Uma vida tão longa, 97 anos, não foi suficiente para ver todos esses sonhos realizados, mas não foi em vão. Ele é exemplo de alguém que soube viver seu tempo e lugar. Isso nunca é em vão. 

Não se mede uma vida apenas pelos resultados das lutas que a pessoa travou, mas pelos sonhos que nos fez sonhar. As pessoas vão embora, mas os sonhos ficam para conduzir gerações. Neste caso, o sonho de um país racialmente justo, sem discriminação, onde a diversidade possa ser mais do que uma característica, mas a nossa maior força.

Descanse em paz nosso guerreiro Abdias e um imenso agradecimento do jovem que te viu bradar nas escadarias do Teatro Municipal para nunca mais te esquecer.

Postei um vídeo com Abdias no meu canal no Youtube. É do Programa Espelhos, com Lázaro Ramos: http://www.youtube.com/user/ReiBulga?feature=mhee

Mensagem da Diretora-Geral da UNESCO: Dia Mundial da Diversidade Cultural 2011

Mensagem de Irina Bokova, Diretora-Geral da UNESCO, por ocasião do Dia Mundial da Diversidade Cultural para o Diálogo e o Desenvolvimento – 21 de maio de 2011




Mensagem da Diretora-Geral da UNESCO para o Dia Mundial da Diversidade Cultural – 21 de maio de 2011

20 de maio de 2011
Há dez anos, a comunidade internacional se reuniu para destacar a importância do diálogo entre as culturas e seu compromisso com a diversidade, adotando unanimemente a Declaração Universal sobre a Diversidade Cultural da UNESCO.
Com esta declaração histórica, os Estados do mundo reconheceram a diversidade cultural como um patrimônio comum da humanidade.
Todas as culturas e civilizações contribuem com o enriquecimento da espécie humana. A diversidade cultural é um ponto forte. Sua defesa é um imperativo ético, inseparável do respeito pela dignidade humana. O reconhecimento desta diversidade pode acelerar o entendimento mútuo e criar um espaço comum ao redor de valores compartilhados. Ninguém pode invocar a diversidade cultural para violar os direitos humanos, ou limitar seu escopo.
O entendimento da diversidade cultural é um aliado na busca pelo desenvolvimento. Várias décadas de programas internacionais mostraram que não há um modelo único de desenvolvimento que seja aplicável a todos os países e a todas as culturas. O reconhecimento da diversidade cultural é a única coisa que pode nos ajudar a implementar programas apropriados.
Há mais de 20 anos a UNESCO busca promover a importância da diversidade cultural, elaborando políticas internacionais de desenvolvimento que sejam mais efetivas e sustentáveis. A onda de democracia que surge no mundo árabe em 2011 é uma prova da universalidade do desejo de liberdade e dignidade. Ela confirma a relevância da Declaração de 2001 e a necessidade de assegurar que seus princípios sejam postos em prática.
A adoção da Convenção da UNESCO para Salvaguarda do Patrimônio Cultural Imaterial (2003) e da Convenção da UNESCO sobre a Proteção e a Promoção das Expressões de Diversidade Cultural (2005) foi um grande passo para o reconhecimento desta diversidade. A resolução das Nações Unidas sobre cultura e desenvolvimento, adotada pela Assembleia Geral das Nações Unidas em 20 de dezembro de 2010, é outro passo revolucionário que enfatiza a contribuição da cultura e da diversidade cultural com o desenvolvimento sustentável e com a realização das Metas de Desenvolvimento do Milênio.
Este progresso reflete uma tendência positiva. Esta nova consciência deve se materializar em ação para apoiar os grupos populacionais e o diálogo cultural. É necessário entender esta diversidade se quisermos fortalecer a cooperação entre os Estados, enfrentar juntos desafios comuns e aprender a conviver em sociedades modernas e, geralmente, heterogêneas. Assim, apelo aos governos, às ONGs e à sociedade civil para que contribuam com a melhoria de nossas habilidades interculturais por meio da arte, do esporte, do aprendizado de ciências humanas e idiomas, e para que melhorem nossa diversidade, para o benefício de todos.
Retirado do site da ONU Brasil: http://unicrio.org.br/mensagem-da-diretora-geral-da-unesco-para-o-dia-mundial-da-diversidade-cultural-%e2%80%93-21-de-maio-de-2011/

quarta-feira, 18 de maio de 2011

Prefeitura do Rio de Janeiro lança campanha contra a homofobia


Falar é muito bom e fazer é melhor ainda. Que o exemplo do governo do Rio de Janeiro, Prefeitura e Estado, possa ser seguido por muitas organizações. Ontem foi o dia mundial contra a homofobia e este gesto é mais que simbólico para nos ajudar, como sociedade, a conviver com a diversidade e respeitar os direitos de todos.

Do site da UOL - 18/05/2011 - 12h26                                

"No Rio, Paes lança conjunto de ações contra homofobia


Rio - A exemplo do que fez na segunda-feira o governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral (PMDB), o prefeito da capital fluminense, Eduardo Paes (PMDB), assinou hoje um decreto que garante a travestis e homossexuais a opção de serem chamados pelo nome masculino ou feminino de sua preferência, independentemente da informação que consta no documento de identidade. O direito vale para servidores e usuários dos serviços da prefeitura do Rio, como escolas e postos de saúde.

Segundo o vice-presidente do Grupo Arco-Íris, Alejandro Pobes, o decreto é uma conquista, mas ainda há muito para ser alcançado. Nas escolas, segundo ele, ainda são corriqueiros os casos de bullying contra homossexuais, e o preconceito existe inclusive entre os professores. "Precisamos criminalizar a homofobia", disse.

A coordenadoria especial da diversidade social do município do Rio informou que formará em até 30 dias uma frente de trabalho para coibir os casos de bullying na administração municipal. Serão oferecidos cursos para funcionários em estabelecimentos comerciais, como hotéis e restaurantes, a fim de orientá-los a respeito das leis que asseguram os direitos de homossexuais."

No site de A Capa está o vídeo da campanha: http://acapa.virgula.uol.com.br/politica/veja-o-video-da-campanha-rio-sem-homofobia/2/14/13577

terça-feira, 10 de maio de 2011

Instituto Amanhã - Ambientes Inclusivos - Entrevista com Reinaldo Bulgarelli e cases empresariais

O caderno 5 do Instituto Amanhã - Núcleo de Projetos Especiais da Revista AMANHÃ, com reportagem e textos de Paulo Cesar Teixeira, já está disponível no link abaixo.

Este caderno tratou do tema "ambiente inclusivo" e o título do caderno é "Estímulo à Diferença". Como sempre me pedem casos empresariais, há três clientes meus na matéria - John Deere, Walmart e DuPont. Há também outros cases muito interessantes.

Vale a pena conhecer também os demais cadernos. Uma contribuição do Instituto Amanhã que deve ser valorizada. Divulgue!

Apresentação do projeto: "Nos últimos anos, o problema da exclusão social passou a ser encarado de uma forma mais definitiva. Projetos liderados por empresas, além de programas oficiais de governo (como o Bolsa-família e o Bolsa-escola) e iniciativas de organizações não-governamentais, estão garantindo a inclusão de uma parcela da população que, até então, ficava à margem. A nova série de cartilhas da Revista e do Instituto AMANHÃ mostra o que vem sendo feito para promover a inclusão social – por meio da educação, de políticas de distribuição de renda, de projetos de empresas e do Terceiro Setor. E também o que ainda precisa ser enfrentado para permitir que populações e grupos hoje excluídos passem a conviver com o resto da sociedade e a desfrutar de bens e serviços básicos.


Outra missão desse projeto foi esclarecer definitivamente o conceito de inclusão social, que algumas vezes é associado apenas à pobreza. O tema será tratado da forma mais ampla possível: vai abordar, sim, a miséria, mas também as dificuldades de grupos como os deficientes físicos, os idosos, e todos aqueles que sofrem com o preconceito racial, entre outros."

Boa leitura.

Link para o Caderno 5: Ambientes Inclusivos

segunda-feira, 9 de maio de 2011

Voluntários da Fundação Bunge - Uma homenagem a quem trabalha pela vida

Voluntários - Uma homenagem a quem trabalha pela vida

por Reinaldo Bulgarelli, 09 de maio de 2011

Dia 09 de abril eu fui ao Embú palestrar para os voluntários da Bunge, animados na ação e no 5o Encontro Nacional pela Fundação da empresa. Fui falar de voluntariado e diversidade.

Naquela semana havia acontecido a tragédia na escola do Rio de Janeiro. Um criminoso jovem, evidentemente perturbado, invadiu a Escola Municipal Tasso da Silveira, em Realengo, no Rio de Janeiro, matando 12 crianças, ferindo 10 e deixando todo o país em luto.

Estava pensando no que dizer naquele momento para voluntários, funcionários da empresa que trabalham em escolas e que estavam especialmente chocados com essa violência. Na hora me veio a ideia de homenageá-los pedindo, ao invés de um minuto de silêncio, um minuto de palmas para os voluntários. Eles entram na escola não para tirar vidas, mas para levar vida.

Por meio destes maravilhosos voluntários, faço aqui a homenagem a todos os voluntários que atuam nas escolas por este país a fora. Enquanto um sujeito causa tanta dor, há estas pessoas, milhares e milhares delas, que "invadem" as escolas durante todo o ano para fazer algo de bom pelas crianças, suas famílias, pelas escolas, pela educação e por nosso país.

Eu estava com o coração apertado naqueles dias. Quem não estava? A gente trabalha exatamente contra essa violência, promovendo a paz, tolerância, entendimento. Mas estar com centenas de voluntários da Bunge e o pessoal da Fundação Bunge me fez sair de lá com a certeza que há muito mais gente fazendo coisas boas. É gente que faz coisas tão importantes e que pode não ganhar as manchetes de todos os noticiários no mesmo instante em que praticam uma boa ação. Mas, estão lá brilhando num cotidiano de solidariedade, tecendo as redes de um país que já é diferente e melhor só pelo fato deles existirem e fazerem o que fazem na comunidade.

Aproveito para postar aqui, além do vídeo com os melhores momentos do evento, o link para o Projeto Escola Brasil, mantido pelo Banco Santander. Lá também se estimula e se oferece apoio para que centenas de funcionários atuem como voluntários nas escolas deste país. Fiz, com Roberta Rossi, um material para os voluntários atuarem com diverisdade na escola. Eles editaram e está no site neste link: http://www.santander.com.br/document/wps/escola_de_todos.pdf

Voluntários, cheios de sonhos e que transformam em presente o que imagiram para o futuro, fica aqui minha homenagem a todos vocês.

Link para vídeo com melhores momentos do 5o Encontro Nacional de Voluntários - Fundação Bunge: Fundação Bunge - Interatividade - Vídeos - 5º Encontro Nacional de Voluntários - Melhores Momentos

domingo, 8 de maio de 2011

Dia das mães - Escolhas que precisam ser valorizadas

Dia das mães - Escolhas que precisam ser valorizadas


Reinaldo Bulgarelli, 08 de maio de 2011

Eu gosto de lembrar a minha própria vida para tratar de alguns temas. E tenho o privilégio de ter “memória de berço”. Lembro-me de passagens interessantes da infância. Nem sei o que eu estava fazendo ontem, mas certas coisas de décadas atrás eu lembro com nitidez. E neste dia das mães, porque não se lembrar da própria mãe para homenagear as mães?

Uma das histórias é sobre a minha escola e aconteceu em 1967, quando eu tinha de cinco para seis anos. Por um erro na matrícula, fui parar no primeiro ano ao invés de ir para o pré-primário. Assim chamavam. Meu pai ficou tão feliz que nem permitiu que o erro fosse sanado. Imagino que ele considerou aquilo como um vestibular ou um prêmio pela minha maravilhosa inteligência, mas foi só um erro de matrícula que me custou fazer o primeiro ano novamente. O diretor recobrou o juízo repentinamente, bem na hora de eu seguir adiante com a minha turma e, apesar das notas, repeti.

Neste primeiro ano, minha professora, por quem eu deveria ter devoção inconteste, dizia que era um erro usar a mão esquerda para escrever. Era uma imoralidade que precisava ser corrigida com castigos. Amarrou a minha mão esquerda e obrigou-me a escrever com a direita. Ela me humilhou na frente dos colegas. Justamente na frente daqueles sujeitos mais velhos que eu estava matutando um jeito para me enturmar. Quando se tem cinco anos, faz muita diferença conviver com quem tem sete.

Essa tortura durou apenas dois dias. No primeiro dia eu não disse nada em casa. Aprendi, logo de cara, que a escola era outro mundo. Todos os rituais eram assustadores e ao mesmo tempo despertavam minha curiosidade. Onde será que aquilo ia dar? Tinha que usar uniforme, levar lancheira, entrar e sair em bandos, fazer fila, fingir que cantava o hino nacional diante da bandeira brasileira, ficar em fileiras de carteiras sem poder conversar com os outros, sem ir ao banheiro (mesmo com vontade) e jamais, nunca, sob qualquer hipótese, usar a mão esquerda para escrever no meu lindo caderno novo.

Não vi diferença entre um horror e outro. Imaginei que todas as crianças eram despejadas naquele local para esse tipo de tortura. Meu pai encheu os olhos d’água quando me entregou à multidão de crianças que subiam a escadaria do Marina Cintra. Imaginei que bom lugar não seria. Era obrigatório, eu logo entendi, porque todas as crianças iam para lá e porque não encontrei brechas para negociar nada, do uniforme, bota ortopédica ao sabor do pacotinho de Lanches Mirabel.

No segundo dia, contudo, eu achei que havia algo de estranho. Eu era o único canhoto da sala e minha exposição pública atingia um nível insuportável. Desconfiei que aquela monstra tivesse saído de algum lugar do inferno porque ela o conhecia bem. Dizia que eu era filho do diabo e iria morar no inferno se continuasse escrevendo com a mão esquerda. Descrevia tudo com tantos detalhes que só poderia ser minha irmã.

Como meu pai - meu herói! - não era o diabo e jamais havia feito qualquer comentário desabonador sobre minha mão esquerda, resolvi arriscar e contar um segredo sobre a vida paralela: a escola. Meu pai ficou indignado e, como sempre, esbravejou muito, disse que a professora era ignorante, que a escola pública já tinha sido melhor. Minha mãe ficou mais calada.

Dias antes, comprando plástico para encapar os cadernos e a cartilha Caminho Suave, ela havia me dito que nunca tinha ido à escola. Mais um motivo para eu desconfiar daquele lugar, mas ela disse aquilo sentida, mostrando que a vida na roça e o fato de ser mulher não permitiam esse privilégio. Eu não sabia ainda o que era ser alfabetizado, portanto, não sabia o que era ser analfabeto. Assim era minha mãe.

Fez poucos comentários para concordar com meu esbravejante pai. Talvez estivesse tão perplexa como eu sobre esse mundo estranho que nós dois não conhecíamos. Dia seguinte, ainda muito calada, levou-me na escola e pediu para falar com a professora. Não me deixou entrar na sala com os outros, segurou-me firme e logo na porta começou uma discussão com a professora. Eu fui arregalando os olhos, admirado pela defesa incondicional da minha atuante mão esquerda. Não sabia se continuava olhando para a cara amedrontada da professora ou se, com o olhar, eu fizesse com que todos os colegas prestassem atenção naquilo. Meu olhar dizia tudo: Viram? É minha mãe. Aí de quem mexer comigo!

Uma mulher analfabeta conseguiu inibir os ímpetos da professora de me queimar vivo na fogueira da inquisição. Proibiu que ela fizesse qualquer comentário ou gesto para me impedir de ser canhoto. Não me lembro das “delicadezas” que ela disse para a professora, mas me senti tão protegido e tão orgulhoso que nunca mais me esqueci. Ser canhoto era uma condição e não uma escolha. Eu podia forçar e ser destro, mas minha mãe não deixou que a torturadora me transformasse em alguém diferente. Eu era canhoto e ponto final. Eu entendi que qualquer injustiça que eu viesse a sofrer, poderia contar com a minha mãe. Entendi que injustiça não era com ela.

Mais tarde, quando eu estava na quinta série do ginásio, passei a alfabetizar minha mãe. Ela se animou tanto que seguiu estudando no Mobral e depois num supletivo, a ponto de escrever seu caderno de receitas culinárias e mostrar para todos com orgulho. Fazia tricô e crochê, como sempre fez, mas agora tinha revistas para tirar os pontos que queria.

Conto primeiro esta passagem para falar de outra que aconteceu um pouco antes, quando eu tinha quatro anos. Eu quis levantar para ir ao banheiro, mas não consegui. Minhas pernas não se mexiam. Acordei meus pais, que dormiam ao lado. Era o único quarto naquele apartamento do zelador, um porão cujas janelas davam para o jardim do Edifício Itambé, bem diante do Mackenzie. Vi o pavor deles, mas lembro que fiquei tranquilo, confiante, mesmo porque não doía nada. Apenas não conseguia esticar as pernas encolhidas, duras, sem o menor sinal de que eram minhas.

Um morador do prédio logo apareceu com um fusquinha vermelho para nos levar à Santa Casa. Era de madrugada. Lá eu fui torturado por médicos que ficavam à minha volta enquanto um batia com um martelinho horrível no meu joelho. Nada dele responder com um chute na cara daqueles tiranos. Eu mostrei, para dissuadi-los da tortura, como meu dedão direito se mexia como Vicente Celestino e como o esquerdo parecia com o nascente Iê-iê-iê. Voltei para casa e fiquei ainda uns cinco dias sem mexer as pernas.

Continuei confiando nos meus pais. Eles dariam um jeito. Vi na cara deles um olhar de pena que jamais esqueci. Eles me olhavam com tanto dó e com profundos suspiros que venci a vergonha e pedi de volta a chupeta. Ela tinha sido jogada no lixo em repetidos rituais até que uns meses antes funcionou. Livrei-me, para alegria dos meus pais, da amada chupeta.

Passei a dormir na cama com minha mãe. Meu pai foi para o meu lugar. Durante o dia, imóvel da cintura para baixo, ficava na cama de casal imensa e recebendo um carinho extra e exclusivo. Melhor de tudo eram as visitas. O povo do prédio, da vizinhança, os parentes e os meus amiguinhos todos vinham em romaria. Eu escondia a chupeta, claro. Estar doente era uma festa e eu até recebia presentes.

Não sabia quando e se voltaria a andar, mas a pólio brigou com a vacina durante aqueles dias e perdeu, sem deixar sequelas. Também à noite eu tive aquela estranha vontade de ir ao banheiro e fui. Só me dei conta de que estava andando quando já tinha saído da cama. Perdi a chupeta e as visitas e os presentes. Não consigo ter lembrança ruim daqueles dias em que a paralisia infantil me rondou.

Lembro-me daquele olhar piedoso dos meus pais e da atenção que eu bem soube aproveitar. Lembro-me também que estavam lá pra tudo, incluindo a busca por uma cadeira de rodas. Para mim, qualquer coisa com rodas era uma diversão. Para meus pais, não tinha diversão alguma, mas lá estavam. E minha mãe contou essa história muitas vezes pela vida a fora. Disse que chorava, mas eu não vi. Disse que moveu o mundo atrás de solução com os médicos e, ao mesmo tempo, foi atrás da cadeira de rodas, um exagero, eu sei, mas devia ser uma forma de encarar a situação. Não vi essas coisas, só senti sua presença, pronta pra garantir felicidade em qualquer circunstância.

Bom, essas foram minhas experiências. Pelo menos as boas. Quando coloquei brinco, nos meados dos anos 80, minha mãe defendeu a pena de morte e foi meu pai que me defendeu. Ficou um sentimento de gratidão e ao mesmo tempo de admiração, sobretudo quando olho daqui pra trás. Quando vejo as mães de filhos homossexuais na Parada do Orgulho LGBT ou quando vejo mães de filhos com deficiência, mesmo quando não possuem deficiência ou não são homossexuais, acho incrível essa solidariedade. Chamam de natural, instinto materno ou outras bobagens. O que há mesmo é uma escolha.

Outro dia, para um amigo que estava passando uma situação difícil, eu o fiz lembrar que não estava sozinho e que contava com sua família. Ele deu entender que contava com eles porque eram da família. Eu, que conheço a família, bem sei que não tem nada a ver com laços genéticos. Eles compartilhavam uma escolha e não um sangue correndo nas veias. Era a escolha por serem próximos, amigos, parceiros, corresponsáveis e solidários.

Uma mãe companheira ou distante, não deixa de ser mãe, um título que recebe com a maternidade. Mãe é mãe. Mas essa mãe que escolhe estar junto, tem que ser ainda mais valorizada. Minhas homenagens a todas as mães, mas minhas homenagens especiais às mães que escolhem conviver, acolher e promover a diversidade. Elas são uma referência que muitos querem reduzir ao instinto materno, como se não fizessem nada mais do que a obrigação, mas são um sinal para toda a humanidade de que outro mundo é possível. E que maravilha quando este mundo novo começa dentro de casa.

Não estou dizendo que essas mães são exemplo de resignação ou de aceitação das desgraças que acontecem na vida. Pelo contrário, essas mães vão à luta pelo direito à diferença. Como sempre gosto de lembrar, cada um de nós é único, uma das possibilidades que a vida encontrou dentro das muitas composições possíveis. Elas entendem que a diversidade não é uma desgraça, um desvio da vida, mas a vida acontecendo e se expressando com a sua pluralidade. Não é de um amor incondicional que estou falando, também muito lindo, nada contra, mas é de um entendimento, em algum momento, de que é bacana conviver com alguém que não é como você, muito menos como você gostaria ou esperaria que fosse. E pais sabem, como sabem, esperar coisas dos filhos, que sejam assim ou assado, a cara deles ou dos sonhos deles. Por isso há escolha, nada natural, nada genético, grudado na condição de mãe.

Ah, se você é adotado e fica enraivecido pela ausência de vínculos genéticos, saiba que a melhor coisa do mundo é ser adotado, escolhido, seja pela mãe biológica ou não. Feliz dia das mães e boas escolhas!

p.s. Se você bateu no seu filho porque ele é canhoto, não precisa ficar envergonhada, basta pedir sinceras desculpas e fazer diferente, reinventar a relação. Sempre é tempo.