sábado, 30 de abril de 2016

Experiência é mesmo importante na hora de contratar alguém?

Experiência é mesmo importante na hora de contratar alguém?

Reinaldo Bulgarelli, sócio-diretor da Txai Consultoria e Educação
30 de abril de 2016

Na minha idade e com 38 anos trabalhando com temas relacionados a desenvolvimento, direitos humanos, gestão, gente, tenderia a me valorizar e dizer que experiência é tudo. Mas, não é. Focar em experiência e não em potencial é um erro gigante.

É um erro em si e também um erro que atrapalha a realização das mudanças na demografia atual do ambiente empresarial. Ela é majoritariamente branca, masculina e sem deficiência, entre outras características. Como mudar se o que é valorizado é exatamente o que fará esse cenário se perpetuar?

Experiência é importante, mas tem que ser relativizada e o valor do potencial deve estar mais presente. Risco? O risco está na homogeneidade. O trabalho em equipe permite compor times onde a inexperiência e a experiência podem ser dosadas no tamanho da missão da área e dos desafios que enfrenta.

Inexperiência soa como incompetência e não é. Inexperiência também não é atributo apenas dos jovens. Depende da pessoa estar assumindo algo novo em sua vida e isso pode acontecer com 20 ou com 60 anos. Também se confunde inexperiência com imaturidade. Nem todo experiente é maduro e nem todo inexperiente é imaturo.

Quer outra confusão? Experiência com excelência. Excelência pode estar ligada à experiência, mas nem sempre e nem com todas as pessoas. A primeira vez de alguém numa tarefa pode surpreender. Também não é bom colar automaticamente na experiência atributos como honestidade, ética, bom relacionamento. São coisas independentes que podem estar ou não relacionadas com experiência.

Experiência também não tem a ver com inovação. A inovação pode vir ou não da experiência. Os mais jovens e os mais velhos de idade sofrem com isso. Tem gente que diz que os mais velhos de idade são incapazes de inovar e tem gente que diz que só os mais jovens são capazes disso, o que joga nas costas deles uma responsabilidade injusta. Idade, experiência e inovação são três coisas diferentes.

Olha quanta coisa para atrapalhar o caminho da transformação! Sempre digo que não se faz uma empresa só com astronautas da NASA. São profissionais muito qualificados de uma organização incrível, mas só com um time de astronautas não se chega na Lua. É preciso muita gente para chegar lá, com uma pluralidade de competências e perfis que interagem e cooperam para isso.

Além disso, um time de astronautas pode entender de muitas coisas, mas não entende de tudo. O mais inexperiente de um grupo pode enxergar coisas que outros não enxergam. O melhor mesmo para uma organização é a diversidade porque ali até a inexperiência pode fazer a diferença na hora de construir uma solução, achar uma saída, propor melhorias ou novos caminhos.

Não é porque a pessoa inexperiente seja melhor, mas porque é diferente do padrão imposto e porque é a gestão da diversidade que irá promover a colaboração, o trabalho em equipe, a interação para que seja efetivamente excelente, criativa, inovadora, pronta para entregar os resultados esperados e até superar expectativas.


Há gestores que olham para a equipe e consideram a diversidade ali presente, incluindo a questão da experiência, tempo de vivência num determinado trabalho ou atividade. Com base nesse olhar é que decidem a importância que o quesito experiência irá ter na próxima contratação, entre tantas outras questões a serem consideradas. 

Colocar a experiência como uma exigência eterna, automática, para todas as vagas, todos os postos, todas as situações, pode levar as empresas à mesmice e ao fracasso. Abaixo a confusão com o conceito de experiência e viva a diversidade!

segunda-feira, 7 de março de 2016

Você quer promover a igualdade entre homens e mulheres na sua empresa?

Você que quer promover a igualdade entre homens e mulheres na sua empresa?
Reinaldo Bulgarelli, sócio-diretor da Txai Consultoria e Educação
08 de março de 2016

Algumas dicas que passo agora, entre tantas outras, mas que podem fazer a diferença em sua empreitada.

1. Não diga que há tarefas “naturalmente” de homens e outras de mulheres. Não há nenhuma atividade no mercado de trabalho que possa ser realizada com base no sexo das pessoas. É uma afirmação da Organização Internacional do Trabalho (OIT) em convenções e tratados que enfrentam a discriminação e promovem igualdade, como a Convenção 100 e 111, por exemplo.

2. Não diga que não há mulheres numa determinada atividade porque ali é necessária a força física. Primeiro, porque é preciso olhar se a atividade cotidiana exige mesmo força física e se essa força está dentro dos parâmetros legais. Se está fora dos parâmetros legais, de saúde e segurança, este é o problema e não as mulheres. Segundo, porque há homens fracos e mulheres fortes. Quando ela é necessária, portanto, coloque foco na força e não no sexo. A força não é um atributo apenas masculino, mesmo que na média os homens tenham mais força do que as mulheres. Você não vai criar uma maga para homens só com base na média. Você contrata pessoas e não “médias”.

3. Não diga que uma atividade é insalubre para as mulheres, que pode colocar a saúde dela em risco. Se há problemas para a saúde das mulheres, há problemas para a saúde dos homens, incluindo a saúde reprodutiva. Melhore o ambiente de trabalho para todos e todas sem usar o risco para discriminar as mulheres. Sim, a gravidez é das mulheres e o bebê pode ter problemas em certos ambientes, portanto, cuide do ambiente, dos homens e mulheres que ali estão, sem usar o grave problema que tem para discriminar as mulheres. 

4. Não diga que as mulheres são um problema para o sucesso da empresa porque elas engravidam. Uma empresa que não incorpora nas práticas de gestão um fato da vida não é uma empresa séria e não vai alcançar sucesso por não ser séria, competente, e não por causa da gravidez das mulheres. Avalie, compare e descubra quem tira mais licença e quem fica mais tempo de licença do trabalho. Se for os homens, como tende a ser, não os descarte por que isso não é promover a igualdade entre homens e mulheres.

5. Não diga que a empresa tem foco no mérito e adora a meritocracia se a liderança não é capaz de inibir e até punir gestores que, por exemplo, solicitam à área de recursos humanos para contratar mocinhas mais bonitinhas. Portanto, acredite, não é apenas a gravidez um problema para a gestão empresarial, mas também a aparência das pessoas, sobretudo das mulheres. Elas são muito exigidas quanto a isso, como se fosse uma competência essencial ter as unhas pintadas e com a cor imposta pelo dress code da empresa.

6. Não diga que é preciso matar os homens ou "aperfeiçoar" as mulheres quando há um problema na cultura da empresa. Essa cultura é masculina, com grande número de homens dentro dela, é também masculinizada nos rituais e masculinizante na opressão que exerce sobre as mulheres e também sobre os homens para que todos sejam à imagem e semelhança do homem idealizado pelo machismo. Empoderar as mulheres não é fim, é meio para transformar a cultura organizacional e não para se ter mulheres fortes, à imagem e semelhança dos homens. Empoderar os homens pode parecer desnecessário, já que são 90% mais ou menos dos que mandam nas empresas, mas o sentido aqui é tomar nas mãos a própria vida e não viver sob as “ordens” do machismo.

7. Não diga que a empresa promove igualdade entre homens e mulheres porque isso dá retorno financeiro para os acionistas. É óbvio que dá, mas chegar a esse ponto é aviltante para você, para todos os homens e mulheres de sua vida. Há coisas que não devem ser feitas porque adicionam valor, dão lucro, mas porque devem ser feitas e ponto. Promover a igualdade diante de um mundo no qual ela não está dada e ainda precisa ser construída não é favor algum aos acionistas, apesar de todos os benefícios que isso traz para todo mundo. É justo, é ético, é princípio, é valor e não deveria estar subordinado à lógica do lucro, mesmo quando ele é evidente.

8. Não diga que as mulheres são o enfeite de sua empresa, as coisas belas que tornam o duro mundo do trabalho mais lindo, que deseja força para elas como se não tivesse nada a ver com o machismo que elas enfrentam. Não diga isso ou coisas parecidas com isso, sobretudo no dia internacional da mulher, porque você vai passar vergonha e nem vai poder reclamar. Pisou na bola mesmo e não tem o que fazer, a não ser se desculpar e rumar o mais rapidamente possível para o século XXI. Pensa que é brincadeira? Já participei de evento onde o presidente disse tudo isso e mais um pouco...

9. Não diga que está trabalhando pela igualdade entre homens e mulheres como se a “categoria” mulher fosse homogênea, um mundo fechado em si mesmo. Há diversidade dentro desse universo comum pinçado entre tantas outras características de uma pessoa. Há também desigualdades dentro dessa diversidade que são transpassadas por questões como raça/cor, idade, aparência, deficiência, orientação sexual, identidade de gênero, religião, regionalidades, classe social e tantas outras. Quando estiver trabalhando pela igualdade entre homens e mulheres, lembre-se das mulheres negras, das mulheres trans, das mulheres lésbicas, das empregadas domésticas, das mais velhas, das mais jovens, das mulheres do norte e nordeste, das mulheres pobres... Só interessa a carreira da mulher rumo a cargos mais elevados na empresa? É muito pouco. Há mais coisas a serem enfrentadas para garantir que chegar lá seja o resultado de uma transformar maior do que apenas o tamanho da sala que elas ocupam.

10. Não diga que naturalmente as coisas vão se resolver, como se estivesse falando sobre a temperatura do final de semana, que o verão vai chegar um dia e que poderá chover ou fazer sol amanhã. Nem essas coisas existem sem a interferência humana, portanto, desnaturalize o que está ao seu alcance fazer. É preciso ações afirmativas para interferir nos rumos e ritmos da gestão empresarial. É preciso gestão e não contemplação passiva diante das desigualdades porque elas estão exigindo ação, pressa e qualidade nos meios ou métodos para se promover a igualdade como algo essencial para o sucesso da organização, das pessoas, da sociedade.

Uma novidade no horizonte da valorização da diversidade de gênero: Eles por Elas (He for She) - Movimento de Solidariedade da ONU Mulheres pela Igualdade de Gênero

Uma novidade no horizonte da valorização da diversidade de gênero: Eles por Elas (He for She) - Movimento de Solidariedade da ONU Mulheres pela Igualdade de Gênero
Reinaldo Bulgarelli, sócio-diretor da Txai Consultoria e Educação
08 de março de 2016

A grande novidade dos últimos anos na promoção da igualdade entre homens e mulheres é o movimento Eles por Elas, da ONU Mulheres. Ele fala diretamente com os homens e busca abrir espaço para que expressem também sua indignação contra o machismo. E nós homens temos algumas tarefas nesta história.

Pensando em casais de homens e mulheres, casamentos entre pessoas de sexo diferente, assim como na realidade do trabalho, seguem aqui algumas poucas dicas só para ilustrar as possibilidades de atuarmos pela igualde:

1. Deixar de prejudicar as mulheres, de colocar o pé na frente para que tropecem. Isso acontece quando não defendemos oportunidades iguais, quando não ligamos se ganham menos do que nós só por serem mulheres. Colocar o pé na frente é colocar barreiras para sua entrada em atividades que dizemos ser apenas para homens. É impedir seu desenvolvimento na carreira porque defendemos com firme convicção que apenas os homens nasceram para mandar. Tire o pé do caminho das mulheres!

2. Também podemos nos educar, desenvolver a crença de que a igualdade é possível, desejável, coisa básica para se promover em todos os lugares, incluindo o mercado de trabalho, mas não apenas. Educar filhos e filhas para a igualdade é tarefa difícil num mundo machista, mas não é impossível. Os homens têm um papel importante na educação dos filhos e filhos para este mundo que precisa transcender o azul e o rosa como uma prisão para meninos e meninas. Se lhe perguntarem se o brinquedo que quer comprar é para menino ou menina, diga que é para brincar. Se o sexo for importante na brincadeira, sinal de que não é apropriado para crianças.

3.     Vá para casa! Se as mulheres foram para o mercado de trabalho, é óbvio que os homens precisam ir para casa. Se as mulheres estão ganhando seu próprio dinheiro, não estão vivendo com mesada do marido ou se estão dividindo os ganhos, é importante que os homens dividam também as responsabilidades no campo da casa, da família, do cuidado com o bem-estar de todos. Não se esqueça de seus pais, sogros ou parentes idosos. Não é ajuda, é responsabilidade compartilhada. Não aprendeu a lavar roupa? Desenvolva-se, aprenda, faça curso, se for preciso, mas não use sua falta de competência como desculpa para sobrecarregar as mulheres.

4.     Saiba ganhar o mesmo que a mulher, saiba ganhar menos, saiba reconhecer que a carreira dela é mais importante quando isso acontecer, saiba ficar desempregado e depender dela e sem que nada disso abale o casamento ou o amor entre vocês. Não destrua uma relação por conta de visões sobre o papel do homem como provedor. É uma visão que nada ajuda na vida do casal. Elas estão cada vez mais buscando parceiros e não provedores, já que foram para o mercado de trabalho. Saiba, enfim, ser parceiro, com tudo que isso significa.

5.     No trabalho, saiba ser chefe, subordinado ou parceiro de uma mulher sem desqualifica-la por ser mulher, sem achar que está roubando o lugar de um homem e sem condescendências, portanto, como se estivesse fazendo um favor por não prejudica-las, já que não é machista. Avalie uma pessoa por seus erros e acertos, mas não os atribua ao sexo.

6.     Não atrapalhar o desenvolvimento de uma mulher no trabalho não é um favor, é um dever. Apoiar o desenvolvimento da mulher no trabalho, não é um favor, é um dever. E é um dever no campo da ética. Não precisa justificar que isso melhora o desempenho da empresa e enriquece acionistas, apesar de ser verdade. O motivo é anterior, está relacionado ao que é essencial para a vida e não ao que é estratégico para a empresa. Se for apenas estratégico, e não essencial, pode ser periférico, não importante, retirado ou modificado, como tudo que é apenas estratégico ou um caminho para se alcançar bons resultados.

Nem é preciso dizer, mas é importante que se diga um grande não à violência física contra as mulheres. Também à violência psicológica, que está presente mais do que pensamos no cotidiano de tantas mulheres. Mas, a violência física é a expressão cruel do machismo que se caracteriza por este sentimento de posse do copo da mulher a ponto de lhe impor castigos físicos. É um problema imenso no mundo todo, portanto, pode estar presente em sua rua, em sua vida.

E nem é preciso lembrar também que a ênfase aqui é dada aos homens, mas sendo o machismo o inimigo comum a homens e mulheres, claro que há muitas mulheres que fazem esse jogo de opressão e muitos homens que não o fazem.

Eles por Elas pode significar mais do que um grupo de homens ajudando mulheres ao não atrapalhá-las ou ao promover condições para seu desenvolvimento dentro deste mundo machista.

Pode e deve significar um grande não ao machismo como algo estruturante na forma de vivermos em sociedade, na forma de ser, de fazer as coisas, de pensar a vida e de se relacionar. É o enfrentamento do machismo na prática e não no discurso, mas é importante romper com a ideia de que nós, os homens, estamos dando uma mãozinha para as mulheres. Eles por Elas é muito mais do que uma ajudinha de alguém que continuará usufruindo de privilégios e que está disposto a discutir a relação, reconstruir as estruturas, reinventar o mundo sobre outras bases que não o machismo.

Há homens e mulheres que vivem aprisionados num modelo machista porque pensam que ele é “natural”, quando não é nada natural ou do campo da natureza. Assim sempre foi e assim sempre será, pensam os aprisionados, como se a natureza fosse algo que vivesse com leis próprias longe da interferência humana. Há homens e mulheres que enxergam possibilidades de ser, fazer e se relacionar de maneira diferente do que o machismo impõe. É porque entendem que estamos lidando com algo no campo das relações sociais e que podem ser modificadas, reinventadas, transformadas.

Há liberdade para além do sexo e gente que consegue enfrentar o machismo a partir de sua condição de homem e de sua condição de mulher, lugares diferentes nesse enfrentamento, mas que podem compartilhar do mesmo objetivo. Apesar de ainda não termos no mundo nenhum país que viva igualdade plena e total entre homens e mulheres, é possível sonhar com esse lugar porque muita gente o está construindo.

As utopias nos arrastam pelo caminho do futuro e se aprimoram quando nos aproximamos do que foi idealizado. Será a igualdade entre homens e mulheres uma utopia? Que bom que somos capazes de uma utopia como essa. Sem trabalho, sem agir, não se sai do lugar e ainda se faz uma grande cratera no caminho para o futuro.

*Conheça o movimento Eles por Elas (ONU Mulheres Brasil): http://www.onumulheres.org.br/elesporelas/

Dia da Mulher: a promoção da igualdade nas empresas

Dia da Mulher: a promoção da igualdade nas empresas
Reinaldo Bulgarelli, sócio-diretor da Txai Consultoria e Educação
08 de março de 2016

Este artigo, pensado para pessoas que estão inseridas no mundo das empresas, tenta apresentar algumas ideias que atrapalham o caminho e outras que podem nos ajudar a seguir adiante e mais rapidamente.
Feminismo.

O que é ser feminista? É ser a favor da igualdade entre homens e mulheres. Tão simples, mas tem sido difícil construir essa igualdade, tanto é que estagnamos em alguns pontos e precisamos de novas abordagens e estratégias para avançarmos. 

Quando somos feministas e defendemos a igualdade entre homens e mulheres, estamos apenas colocando em prática o que está na Declaração Universal de Direitos Humanos: todas as pessoas nascem livres e iguais em dignidade e direitos.

Então, se você preferir não adotar o nome de feminismo para essa crença, fique à vontade porque o importante mesmo é compartilhar dos princípios, dos valores universais de direitos humanos e, sobretudo, agir com base neles para transformar essa afirmação da liberdade e da igualdade em algo concreto.

Igualdade? Quer dizer que não existem diferenças entre homens e mulheres?

A luta pela igualdade não significa dizer ou supor que não haja diferenças entre homens e mulheres. A pessoa precisa ser muito ingênua para dizer que é contra o feminismo porque homens e mulheres são diferentes. E são mesmo diferentes de muitas maneiras.

A igualdade que interessa aqui afirmar é a que considera nossas diferenças para promover justiça, ou seja, estamos falando de equidade e visando o desenvolvimento pleno de nossos potenciais como homens e mulheres.

A diferença está para a diversidade como a desigualdade está para a opressão.

Portanto, a diferença que existe no fato de ser do sexo feminino não pode se transformar em motivo para desigualdades injustas, desvantagens, vulnerabilidades, violências, desqualificações e exclusões. E isso tudo costuma acontecer em função de uma visão sobre a superioridade dos homens.

O que é diferente se transforma em desigualdade injusta. Homens e mulheres possuem características, semelhanças e diferenças numa relação que poderia ser marcada pela riqueza que a diversidade oferece. Contudo, a mulher se torna diferente do homem, o ser superior, e não apenas uma pessoa com características nas quais há diferenças e semelhanças em relação aos homens.

Não suma com as características. Considere-as!

Somos diferentes e, aliás, viva a diversidade! É o segredo da vida em todos os sentidos, cultural e biologicamente falando. Quando afirmamos a igualdade para sumir com as diferenças, não é um bom caminho, é opressão de uns sobre outros porque o que irá imperar é o que se acha superior ou aquele que é escolhido como superior. Iguais em dignidade e direitos é o que está sendo afirmado e o que precisa mover nossa vontade para a construção de nosso pleno desenvolvimento como pessoas e como sociedade.

Igualdade, então, não significa sumir com as diferenças ou, de forma mais ampla, com as características. É preciso considera-las ao se pensar em qualquer atividade humana, ao se pensar no nosso jeito de ser, de fazer as coisas e de nos relacionarmos.

Dê à natureza o que é da natureza! Desnaturalize o que está no campo social.

Para isso, é importante não naturalizar as desigualdades injustas ou atribuir a comportamentos, escolhas que realizamos sobre como ser homem e mulher na sociedade, esse ar de ciência natural, de biologia que tudo explica e tudo justifica. Nossos costumes, hábitos, a cultura na qual estamos imersos é a responsável por muito do que acontece e não a natureza.

Se a sua frase começar com “é natural”, pare e pense bem. Pode estar escondendo algo de opressão, de injustiça que pode ser resolvido, enquanto o que é da natureza entregamos para ela resolver. Desnaturalize!

Colocar no campo do natural o que está dado no campo das relações sociais, da cultura, das coisas que inventamos sobre como ser homem e ser mulher em diferentes tempos e lugares é um dos entraves maiores que as mulheres enfrentam.

Sexo e gênero – o natural e o social.

Por isso estamos falando aqui de gênero. Simplificando, é como uma casca de cultura sobre a realidade biológica que também nos caracteriza, mas que não nos aprisiona ou nos conforma numa realidade como se fosse um destino traçado, um lugar para habitar para todo o sempre. Nenhum ser humano é assim. Não nos conformamos com nada e a tudo transformamos.

A própria natureza não existe sem a cultura se pensarmos em como nossos corpos foram evoluindo ao longo da história da humanidade. Edgar Morin diz algo importante sobre nossa condição humana: somos 100% biologia e cultura. Nossos corpos foram sendo construídos também a partir de nossas escolhas, nossos hábitos e costumes. Estamos falando de milhões de anos de nossa evolução e não apenas nos dias atuais.

Simone de Beauvoir diz que “Ninguém nasce mulher: torna-se mulher. Nenhum destino biológico, psíquico, econômico define a forma que a fêmea humana assume no seio da sociedade; é o conjunto da civilização que elabora esse produto intermediário entre o macho e o castrado que qualificam de feminino.” Gênero é essa questão presente nas nossas escolhas de como podemos ser homens e mulheres para além de nosso sexo.

Iguais e ao mesmo tempo diferentes, entre o que é dado pela biologia e o que é construído no campo das relações sociais, assim somos e a confusão não ajuda em nada na construção de relações justas e respeitosas para com todas as pessoas.

Feminismo e machismo

Se o feminismo é a expressão da crença na igualdade e trata do enfrentamento travado para a construção dessa igualdade, o inimigo da mulher, portanto, não é o homem, mas o machismo. Ele anda pelas cabeças de homens e mulheres prejudicando aos dois, prejudicando a todos e o todo, a sociedade, as possibilidades de desenvolvimento que possam beneficiar a todas as pessoas num mundo sustentável.

Está afirmação acima é perigosa porque pode esconder a verdadeira tragédia que significa ser mulher numa sociedade machista, violenta, que produz desigualdades injustas, humilhações e desvantagens das mais variadas. Pode esconder o poder que os homens possuem, que dele gozam com privilégios imensos e muito bem saboreados por muitos desses homens. Muitos não querem abrir mão do poder e dos privilégios que há no fato de ser homem num mundo machista.

A afirmação de que o machismo é o inimigo a ser enfrentado não pode esconder nada e deve escancarar a tragédia, denunciar os privilégios, questionar e abalar o poder exercido sem qualquer legitimidade. Quando o machismo é o inimigo, ganha-se maior efetividade, contudo, neste enfrentamento porque a afirmação permite enxergar melhor o problema e engajar todos os seus envolvidos, incluindo os homens.

E os homens?

Diz um texto feminista que li há muitos anos que o carcereiro é também um prisioneiro. Os efeitos do machismo sobre a vida dos homens são imensos também, com prejuízos dos mais variados. Disse Emma Watson, embaixadora global da Boa Vontade da ONU Mulheres, apontando um dos prejuízos mais básicos causados pelo machismo:

“Eu quero que os homens comecem essa luta para que suas filhas, irmãs e esposas possam se livrar do preconceito, mas também para que seus filhos tenham permissão para serem vulneráveis e humanos e, fazendo isso, sejam uma versão mais completa de si mesmos”.

A crença por traz é que homens e mulheres nasceram para ampliar juntos as possibilidades do gênero humano. Boutros Boutros-Ghali, então Secretário Geral da ONU (1992-1996), escreveu que “A humanidade possui duas asas. Uma é a mulher. A outra é o homem. Enquanto as asas não forem encaradas com a mesma dignidade que cada um merece, a humanidade não poderá voar. Necessitamos de uma nova humanidade.”


Que romântico, dirão alguns. Que triste, isto sim, é viver num mundo em que ainda é preciso ficar explicando porque é importante promover a igualdade entre homens e mulheres. Não há como promover igualdade sem envolvimento dos dois, homens e mulheres, no enfrentamento do machismo. O problema e a solução moram na qualidade das relações entre homens e mulheres. Nada mais importante que conseguir enxergar os problemas do machismo para os dois e engajar a todos nesta desconstrução necessária para ambos.

sábado, 2 de janeiro de 2016

Dia Mundial da Paz: a vontade de ser um só coração

Dia Mundial da Paz: a vontade de ser um só coração
Reinaldo Bulgarelli, 01 de janeiro de 2016

As redes sociais nos colocam hoje diante de uma pluralidade de prioridades, interesses, visões, opiniões, desejos, entendimentos, sentimentos, crenças, valores, posicionamentos que estão presentes ali no nosso dia a dia, nem sempre reunidos num só lugar, nem sempre tão explícitos ou tão visíveis. O que é motivo de aplauso para uns pode não ser para outros, seja por indiferença ou ódio. E aquela vontade de ser umbigo do mundo me faz lembrar daquele dia triste em que meu pai morreu e o mundo não parou. Nem que ele fosse a pessoa mais importante do mundo, esse mundo não iria parar e nem haveria unanimidade sobre sua importância.
Mas algo em mim teima em querer reinar absoluto segundo meus sentimentos. Se eu estou triste, todos deveriam estar. Se eu estou pensando algo de um jeito, é inacreditável como os outros não pensem da mesma forma. Além de unanimidade, algo em mim exige do mundo a sincronia. Se eu desejo a paz, um mundo melhor, todos deveriam estar unidos, sintonizados no meu desejo naquele mesmo instante. Não é assim.
Parece que a felicidade depende da homogeneidade, todos num só coração, como me ensinou a musiquinha da Copa de 1970. Parece que o paraíso é quando todos juntos formarmos um só corpo, mente e coração alinhados de forma absoluta. O melhor dos mundos ou o mundo melhor será assim com todos juntos, sincronizados, unânimes, integrados, unificados, sentindo e pensando do mesmo jeito. Não vai ser assim.
Então, por que a insistência? Ela traz sofrimento, decepção com a humanidade toda, vontade de desistir, muito tempo perdido, enfim, falando mal da vida e dos humanos. É muita energia perdida para homogeneizar ao invés de dialogar e compreender o que é diferente, divergente, inimigo da minha maneira de ser, fazer e se relacionar no mundo.
Gastamos um tempão com isso, muita energia e a depressão é o resultado dessa frustrante expectativa de que tudo fosse unificado para ser bom. Alguém faz uma besteira, entre os mais de sete bilhões de pessoas que compartilham a vida no mesmo tempo que eu, e isso basta para destruir minha crença na humanidade inteira. Não é nada saudável viver desta maneira porque a busca pelo absolutamente homogêneo para que haja paz parece imobilizar ao invés de gerar ação. Um otimismo extremado na humanidade toda ou uma visão catastrófica sobre nós todos não parecem construir um bom futuro.
“A análise histórica e o pensamento político permitem crer, embora de modo indefinido e genérico, que a estrutura essencial de toda a civilização atingiu o ponto de ruptura. Mesmo quando aparentemente melhor preservada, o que ocorre em certas partes do mundo, essa estrutura não autoriza antever a futura evolução do que resta do século XX, nem fornece explicações adequadas aos seus horrores. Incomensurável esperança, entremeada com indescritível temor, parece corresponder melhor a esses acontecimentos que o juízo equilibrado e o discernimento comedido. Mas os eventos fundamentais do nosso tempo preocupam do mesmo modo os que acreditam na ruína final e os que se entregam ao otimismo temerário.” Hannah Arendt no prefácio à primeira edição de “As Origens do Totalitarismo”, no verão de 1950.
Devo abrir mão de algo para me harmonizar com o mundo? Às vezes sim, mas o mais importante é rever o que entendo por harmonia, paz, paraíso ou mundo melhor. Qual é a minha utopia? Se for essa da unidade de mentes e corações em torno do que considero o melhor, vou gastar a vida como um tirano que faz de tudo para tornar o mundo à minha imagem e semelhança. Não é ato de criação, mas de destruição. Não é ponto inicial, é ponto de chegada.
Nada como uma boa causa, segundo meu entendimento, para sair por aí impondo vontades ao invés de apenas expressar meu ponto, viver segundo essa boa causa e conviver com a divergência num enfrentamento diário para chegar a algum lugar que não seja o extermínio da vida como ela é. Não vai dar certo maldizer a escuridão, segundo meus padrões de luminosidade, ao invés de encontrar pontos em comum e formas de conviver com a dissonância.
Meu desejo de ser o compasso da vida de todos, marcando o ritmo com base na batida do meu coração, finge ser democrático quando apenas devoro diferenças, sumo com elas nesta busca de pontos em comum. É mais forte em mim buscar relações apenas com base na semelhança, no que há de comum, quando o mais desafiador é lidar com os dois, como a semelhança e a diferença em relação a mim. É mais prazeroso descobrir no outro apenas o que há de semelhante em relação a mim e sumir, fingir que não existe, suprimir as diferenças e as divergências.
A vida não é assim. Nem todos estarão lá no mesmo momento e da mesma maneira. Sei que o desafio é o relacionamento que combina a convergência com a dissonância, ora lidando com o que há de comum e com o que há de diferente. A paz não é ausência de guerra, de conflito, de violência, mas presença de justiça, de diálogo, de convivência, de tolerância, de busca por espaço para a minha expressão sem sumir e sem desaparecer com a expressão dos outros.
Tarefa difícil para quem tende a querer unidade de pensamento, sentimento e ação como um todo homogêneo e nada plural. A pluralidade parece inimiga do desenvolvimento, desafia, provoca, atrapalha, mas ela é a própria base do desenvolvimento humano. É que me ensinaram a desejar a homogeneidade e eu, pelo jeito, gostei.
Luto firmemente para que a paz mundial seja possível, mas luto antes de tudo contra essa ideia que insiste em viver dentro de mim desejando que tudo pare ou tudo siga conforme meus humores. Se me ensinaram a homogeneizar como se fosse uma sina da minha biologia humana, posso aprender a pluralizar, a conviver nas diferenças e semelhanças, numa harmonia que está centrada na diversidade e não nesta falsa unidade. Parece que o ensinamento perverso não é tão antigo assim e dá para reverter a tempo de ser feliz. Parece que tudo no meu corpo também colabora para compreender a diversidade como fonte de desenvolvimento e não de atrofia e derrota.
A nossa história diz isso. Chegamos aqui porque há diversidade e não essa paz falsificada, vendida como ausência de barulho, conflitos, divergências. Sobrevivemos porque soubemos cooperar na diferença, não porque tentamos exterminar a diferença. Até tentamos, mas jamais foi possível. A vida não deixa. No dia em que deixar, não haverá mais vida.
Não temos regras? Vale-tudo neste mundo plural? Nunca! Não chegaremos a lugar algum sem parâmetros, agendas, compromissos, combinações que nos façam, antes de tudo, garantir a pluralidade. Que combinação alguma nos faça menos tolerantes com a verdade alheia e que pluralidade alguma nos deixe sem rumo neste maravilho mar de conflitos. Assim, tento viver convivendo, sendo firme e ao mesmo tempo aberto a novas possibilidades.
Sobretudo, tento resgatar o valor da tolerância porque nem tudo vai mudar, nem todos serão como eu quero, nem todos vão estar lá no mesmo momento e do mesmo jeito. Tolerância é exigência de um mundo com mais de sete bilhões de pessoas singulares, únicas e ao mesmo tempo plurais, coletivas, compartilhando diferenças e semelhanças sobre a mesma Terra na qual respiramos para viver e para sermos felizes, seja lá o que isso queira dizer em cada tempo e lugar.
E por falar em tolerância, neste Dia Mundial da Paz, da ONU, cabe lembrar um de seus mais belos documentos:
Declaração proclamada e assinada em 16 de novembro de 1995 pelos Estados Membros da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura, reunidos em Paris em virtude da 28ª reunião da Conferência Geral, de 25 de outubro a 16 de novembro de 1995.
Artigo primeiro da Declaração de Princípios sobre a Tolerância
1.1 A tolerância é o respeito, a aceitação e o apreço da riqueza e da diversidade das culturas de nosso mundo, de nossos modos de expressão e de nossas maneiras de exprimir nossa qualidade de seres humanos. É fomentada pelo conhecimento, a abertura de espírito, a comunicação e a liberdade de pensamento, de consciência e de crença. A tolerância é a harmonia na diferença. Não só é um dever de ordem ética; é igualmente uma necessidade política e jurídica. A tolerância é uma virtude que torna a paz possível e contribui para substituir uma cultura de guerra por uma cultura de paz.
1.2 A tolerância não é concessão, condescendência, indulgência. A tolerância é, antes de tudo, uma atitude ativa fundada no reconhecimento dos direitos universais da pessoa humana e das liberdades fundamentais do outro. Em nenhum caso a tolerância poderia ser invocada para justificar lesões a esses valores fundamentais. A tolerância deve ser praticada por indivíduos, pelos grupos e pelo Estado.
1.3 A tolerância é o sustentáculo dos direitos humanos, do pluralismo (inclusive o pluralismo cultural), da democracia e do Estado de Direito. Implica a rejeição do dogmatismo e do absolutismo e fortalece as normas enunciadas nos instrumentos internacionais relativos aos direitos humanos.
1.4. Em consonância ao respeito dos direitos humanos, praticar a tolerância não significa tolerar a injustiça social, nem renunciar às próprias convicções, nem fazer concessões a respeito. A prática da tolerância significa que toda pessoa tem a livre escolha de suas convicções e aceita que o outro desfrute da mesma liberdade. Significa aceitar o fato de que os seres humanos, que se caracterizam naturalmente pela diversidade de seu aspecto físico, de sua situação, de seu modo de expressar-se, de seus comportamentos e de seus valores, têm o direito de viver em paz e de ser tais como são. Significa também que ninguém deve impor suas opiniões a outrem.

Disse Gandhi que não há caminho para a paz, a paz é o caminho. Disse tudo.