Bilhetinho às crianças e adolescentes, filhos de nazistas, sobre gênero e diversidade na educação
Reinaldo Bulgarelli
23 de junho de 2015
Se você é de uma família criacionista, por exemplo, encontrará na escola a versão científica desta história. Estamos falando da escola pública e não uma escola confessional, mas isso vale para todas.
Cabe à sua família dizer no que crê e à escola dizer o que sabemos, nós humanos, sobre nós mesmos. E tudo com base na ciência. Não deveria haver conflito, apenas o direito ao acesso à informação, sobretudo à informação com base na ciência, sobretudo na escola pública, mas isso vale para todas. Conhecer é (ou deveria ser) algo muito prazeroso.
O país tem uma Constituição (conheça, vale a pena!), e tem uma LDB e um PNE. Tem, ou deveria ter, gente séria cuidando para que a escola fosse um lugar que cuidasse da sua formação e não um lugar de pregação nazista (com o dinheiro público!). As alianças políticas às vezes descambam para lugares horríveis e esquecem até de cuidar da escola, da educação e agem como se pudessem lotear também o futuro que nem terão (a vida é curta!).
O mesmo vale para o conhecimento sobre questões de gênero, diversidade humana e outros temas que você precisa conhecer, até para poder tomar suas decisões, realizar suas escolhas, produzir algo sobre tudo isso, quem sabe? O que não está no campo das escolhas, ou não deveria estar, é o respeito às pessoas.
Você deverá saber que amar as pessoas está no campo das escolhas, mas respeitar não está. Se a religião dos seus pais diz para amar todas as pessoas, muito bem, mas na sociedade o texto que rege nossas vidas é escrito por gente e ele nos diz para respeitar todas as pessoas.
Tem um texto muito legal que você precisa conhecer (e que seus pais odeiam). Ele diz que “todas as pessoas nascem livres e iguais em dignidade e direitos”. Não é um texto sagrado, mas elaborado por gente, sim, gente como eu e você, para enfrentar gente como seus pais que querem aniquilar os que são diferentes deles.
Sua família, minha criança e meu jovem, pode estar tirando de você o acesso a uma informação que vai lhe fazer falta na vida. Pior, está impondo a você uma formação nazista na qual o desrespeito e a violência contra "os pecadores", “os diferentes deles”, os "destruidores da pátria e da família”, são uma exigência para você ser reconhecido como "uma pessoa de bem". Lá no céu da sua religião, você vai ter que prestar contas do amor, mas aqui você deve (ou deveria) prestar contas do respeito.
Presta atenção: a vida não é assim como querem seus pais nazistas e, se for, será uma vida muito pobre, cheia de sangue nas mãos, o que não é uma coisa boa para ninguém, inclusive para você. Não acredita? É porque seus pais não deixam você conhecer a história, ver o mundo para além da ideologia deles, das mentiras que inventam em nome da sua “boa formação moral”.
Esse nazismo com cara de religião (cada hora o nazismo tem uma cara, mas é tudo a mesma coisa) é vergonhoso e será cada vez mais poderoso quanto menos você aprender na escola, sobretudo na pública, mas não apenas.
Meu conselho é que você diga aos adultos que cuidam de você e que deveriam te ajudar a estar no mundo e com o mundo, que você tem direito a saber o que diz a ciência, tanto quanto eles têm direito a te dizer o que diz a religião deles.
O que eles não têm direito é de fazer pregação nazista na escola, muito menos na escola pública, mas não apenas.
Quem cuida (ou deveria cuidar) de manter e fortalecer o estado democrático de direito, há de se manifestar sobre as práticas nazistas de seus pais e desfazer o que estão fazendo no espaço público, mas não apenas. (Se fazem isso na vida pública, imagine o que não fazem na privada?!)
Uma escola não fica vazia apenas quando faltam alunos, mas quando lhe retiram o motivo para a qual foi criada.
Este é um blog sobre valorização da diversidade que também reúne artigos, notícias, comentários e informações variadas sobre o tema e suas interfaces com sustentabilidade e responsabilidade social empresarial. Estou também reunindo aqui (quase) tudo que sai publicado com minha participação, como artigos, entrevistas, livros, notícias, facilitando que sejam encontrados em um só lugar. Boa leitura! Reinaldo Bulgarelli
terça-feira, 23 de junho de 2015
terça-feira, 12 de maio de 2015
Diversidade humana e a humanização da diversidade
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| Anjo de costas, sem rosto, só asas. (foto: Reinaldo Bulgarelli) |
Diversidade humana e
a humanização da diversidade
Reinaldo Bulgarelli, 12 de maio de 2015A diversidade nas organizações empresariais enfrenta o desafio de se humanizar. Muitos dizem que não é importante falar de diferenças, muito menos das questões de gênero, raça, idade, orientação sexual, identidade de gênero ou deficiência, entre outras características, mas da diversidade cultural, de pensamento ou de ideias.
Defendo que a diversidade nos convida a olhar tudo junto e
ao mesmo tempo. Estamos falando da diversidade de características tidas como
visíveis, tanto quanto estamos falando da diversidade de histórias de vida,
experiências, sentimentos, pensamentos, crenças e perspectivas.
Os motivos para isso são muito simples. Ninguém, por
exemplo, é apenas mulher. É mulher e muito mais, numa complexa e rica variedade
de marcadores identitários que tornam cada pessoa única ou singular. E as
mulheres vivem numa dada realidade, um tempo e lugar que a valoriza ou a
desqualifica conforme o grau de machismo presente na sociedade.
A característica “ser mulher” traz implicações na rede de
relações sociais de acordo com o entendimento produzido pelo machismo sobre o
que significa ser homem ou ser mulher, quem pode mais, quem nasceu para isso e
para aquilo, quem é forte e quem é frágil. Uma característica tida como visível
pode produzir experiências das mais variadas numa pessoa do sexo feminino e no
seu entendimento sobre os papéis de gênero que a cercam desde o nascimento.
Uma das consequências do machismo é a produção de
desigualdades injustas entre homens e mulheres. São injustas porque estão num
nível intolerável e não estão baseadas no mérito, mas na característica. O que é
apenas uma característica, se transforma em motivo para desigualdades injustas
e, numa sofisticada teia de geração de falsas hierarquias sociais, essas
desigualdades podem ser naturalizadas. O que é do campo social, essa
desigualdade produzida na vida em sociedade, é justificada como se fosse do
campo da natureza, da biologia ou da genética.
Só por esses motivos já é possível insistir no convite da
diversidade para seja humanizada, ou seja, para que se considere a pessoa toda
nas suas circunstâncias, na rede de relações e nesta teia de ideologias da
discriminação (racismo, machismo...) na qual estamos imersos e da qual
precisamos nos libertar. Humanizar a diversidade parece redundante, mas não é o
que acontece quando nossos programas de valorização da diversidade pinçam um
marcador identitário, como ser mulher, separando-o da história de vida e de
todos os outros marcadores que contém, suas implicações e impactos.
No pensamento simplista, ou você é mulher ou é uma ideia, ou
é um corpo ou uma alma. Acolher a vida como ela é significa considerar um
marcador identitário como porta de entrada para toda a riqueza da diversidade
humana contida em cada pessoa, uma singularidade que se expressa de forma
dinâmica e complexa na teia de relações sociais.
terça-feira, 7 de abril de 2015
O poder da cultura sobre a licença maternidade
O poder da cultura sobre a licença maternidade
Reinaldo Bulgarelli
07 de abril de 2015
Beatriz Portugal, jornalista freelance, escreveu um delicioso
relato
na perspectiva de gênero sobre sua experiência na Islândia. A Islândia é citada sempre que
se fala em equidade entre homens e mulheres. O país está a cinco anos
consecutivos no topo do ranking anual do Fórum
Econômico Mundial.
Contudo,
essa comparação com outros países permite observar comportamentos da sociedade
que se refletem no mercado de trabalho. Beatriz fala logo de cara em
maternidade e da premissa dos direitos iguais entre pai e mãe. Lá a licença é
de nove meses ao todo. Uau! São três meses para a mãe, três meses para o pai e
outros três que podem ser usados e divididos pela mãe e pelo pai. Um avanço e
tanto.
Por que a maternidade é alvo da proteção da
legislação aqui no Brasil? Por que a sociedade ainda não demanda por direitos
iguais e cabe apenas à mulher, na cabeça dos legisladores, a tarefa de cuidar
da criança. Bem verdade que a criança também tem direitos nesta história e a
amamentação é uma delas, de preferência, nos primeiros seis meses. Tirando a
gravidez e a amamentação, não há nada que diga respeito apenas à mulher e,
mesmo a gravidez e a amamentação podem e devem ser acompanhadas de perto pelo
pai.A legislação na Islândia expressa uma visão de mundo no qual homens e mulheres têm direitos iguais, incluindo a constituição da família, o cuidado com os filhos e com a casa. O homem não ajuda em casa, ele faz o que deve fazer. A mulher não tem “privilégios” por ser mãe. A licença é para que ambos cuidem dos filhos, considerando as diferenças, mas sem gerar desigualdades.
Uma das desigualdades criadas com a legislação que não parte da premissa da igualdade e, portanto, da responsabilidade de homens e mulheres para com o desenvolvimento da criança, é a do acesso e permanência da mulher no mercado de trabalho. Usa-se esse fato da gravidez e da maternidade para pagar menos à mulher e para criar barreiras para seu desenvolvimento profissional.
Se a legislação pensa nos três – na mulher, no homem e na criança, não é apenas a mulher o problema da empresa, mas a família, a paternidade e a maternidade. Como o mercado de trabalho ainda avesso a gente em sua diversidade, pensando no nosso caso aqui no Brasil, não tem como se livrar totalmente de homens e mulheres, é obrigado a conviver com os dois e com essa legislação que obriga a empresa a conviver com um fato da vida: há pessoas que gostam de ter filhos e que gostam de cuidar deles.
Diz a Beatriz que na Islândia é até mal visto um pai que não assume sua responsabilidade e entrega tudo para a mulher cuidar. Virou coisa feia ser homem que não participa como é feio fumar, contar piadas homofóbicas, desprezar questões ambientais e assim por diante. Como é valor para a sociedade, as práticas de gestão, com seus filtros sempre largos a tudo de bom e tudo de ruim que há na cultura, tender a ver com maus olhos o profissional homem que não cumpre com suas obrigações. Viva a Islândia!
Aqui, um homem que pede para sair mais cedo para levar a criança no médico vai gerar profunda admiração pelo feito extraordinário e o comentário maldoso de que é mal casado porque a mulher, relapsa, não cumpre com sua obrigação. Estou exagerando?
Lá na Islândia já não é mais estranho, como é para nós, que um homem comente no trabalho que está com o corpo dolorido porque fez tarefas domésticas naquele dia: lavou, passou, cozinhou, limpou o banheiro, a cozinha, ficou com a criança no colo pra cá e pra lá e coisas do tipo. É a igualdade e suas implicações maravilhosas para o cotidiano de homens e mulheres.
Claro que um casal deve poder escolher, dependendo do momento e do desempenho na carreira, quem vai se dedicar mais ao trabalho ou à casa, mas há a escolha e ela pode ser tanto do homem como da mulher, sem estigmas ou o rótulo de que um deles está fora do lugar. O trabalho e a casa são lugares tanto de homens como de mulheres. Que sonho!
Lá, as mulheres têm filhos mais cedo e 88% das que estão em idade economicamente ativa trabalham. A taxa de fertilidade é das mais altas da Europa com média de dois filhos por mulher. Aqui, o mercado de trabalho ainda é masculino, o desemprego é feminino, mesmo com a sociedade brasileira sendo constituída por maioria de mulheres e tendo elas mais anos de escolaridade do que os homens. Melhor nem falar da diferença de salário ou de acesso à política, com um Congresso masculino e que tem que pensar a sociedade toda.
Para a Europa pode ser importante essa alta taxa de fertilidade, enquanto aqui as regras para o mercado de trabalho geraram um dos mais bem-sucedidos controle de natalidade do mundo. Não dá para escolher. A regra é clara: ou a mulher escolhe trabalhar ou viver. Sempre lembro que parece um assalto: a bolsa ou a vida!
Não bastasse um mercado de trabalho ainda distante desta ideia de igualdade entre homens e mulheres, temos um Congresso cada vez mais conservador que, com base em religião, diz que o trabalho da mulher está destruindo a família brasileira. Tudo que puderem fazer para colocar a mulher de volta ao lar com seu papel bem definido, melhor para a família. Ô atraso!
Gosto de analisar a Islândia nestas questões de gênero porque fica evidenciada essa questão de valor, da igualdade como valor, do cuidado compartilhado como valor. Na Islândia, a sociedade, portanto o mercado de trabalho, entendeu que gravidez e maternidade fazem parte da vida e incorporam esse fato na gestão empresarial.
Aqui ainda se tem que escolher entre viver e trabalhar, então tem algo errado. Cada talento que a empresa perde por conta desta falsa escolha deveria pesar na consciência, além de pesar no bolso. Enquanto não for valor lidar com a vida como ela é, as empresas preferem pagar o preço, ter prejuízo, ver o talento ir embora e sem se lamentar, culpando a mulher pela "escolha", porque mais importante é manter o controle e a ordem. Tudo que não é homogêneo traz uma complexidade que é encarada como problema e não como solução.
Nem dá mais pra dizer que é a ordem dos homens, apesar deles terem criado as empresas à sua imagem e semelhança, sobretudo de um padrão de homem idealizado: livre de gravidez, da amamentação, bem como livres do afeto pelos filhos, pela vida, pela família, pelo lazer, com foco apenas na empresa e na carreira. Sabem de nada, inocentes!
Hoje há homens que também não se encaixam mais neste padrão avesso à paternidade responsável, participativa, que compartilha o prazer de viver e de trabalhar, o prazer de ver o negócio e os filhos crescerem. Triste essa falsa escolha que o ambiente de trabalho ainda impõe às mulheres e, mais recentemente, aos homens que desejam algo mais do que ser uma “mão-de-obra”. E tudo porque ainda não paramos direito para pensar o quanto faz bem para os negócios saber lidar com a vida, a vida como ela é.
sexta-feira, 3 de abril de 2015
Ódio

Ódio
Reinaldo Bulgarelli03 de abril de 2015
O ódio parece ter um alvo, mas
tem mesmo é pavor de gente, de tudo que é gente.
O ódio manda e desmanda, gosta
de parecer sério, durão, falar alto, cuspir palavras, babar venenos, retratar o
mundo como o inferno que vai dentro dele. O ódio é cheio de ordens pra dar, quer mandar até no tempo e botar todo mundo pra morar no seu passado, só porque não tem a menor vontade de construir futuros.
O ódio é ignorante, não quer compreender os problemas e buscar a melhor solução, quer julgar e exterminar.
O ódio é covarde, joga culpas e não assume responsabilidades, gosta de incitar os outros a fazer o que quer e diz que estava só falando verdades.
O ódio é mentiroso, distorce tudo a seu bel prazer porque o importante é mostrar quem manda e quem tem razão.
O ódio é opressor, não gosta de liberdade, não aceita que se façam escolhas porque já tem tudo pronto para o mundo, como ele deve ser e como deve se comportar.
O ódio é arrogante, assume o lugar da verdade e não sabe lidar com a dúvida e muito menos com o erro, com o que outros têm a dizer, o que outros vivem, sentem, pensam, querem, buscam ou escolhem.
O ódio é autoritário, não deixa espaço para a incoerência, para a contradição, quer tudo certinho, em ordem, como se a vida acontecesse numa régua.
O ódio é destruidor, nada escapa e nada fica de pé, a não ser sua inarredável vontade de imperar sobre tudo.
O ódio é vingativo e não justo, não quer o que é certo, mas o que diz ser correto segundo a suas leis inquestionáveis.
O ódio é intolerante porque não suporta a diversidade e detesta o que não é homogêneo, liso, plano, enfim, o que não é a sua imagem e semelhança, o que não dá para ele comandar e controlar.
O ódio é preguiçoso, mas diz que é prático, que gosta de sair fazendo e não de ficar falando. Não tem a menor vontade de lidar com o imponderável, o improvável, as surpresas da vida e, assim, não sabe lidar com a própria vida.
Quando a gente começa a confundir indignação com destruição do inimigo, quando a gente confunde exercício da cidadania com humilhação dos mais fracos, quando a gente começa a dizer que o mundo está perdido e sente vontade de sair dando tiro, quando perde a vontade de escutar, de compreender, de dialogar, cuidado, o monstro do ódio tá vindo morar dentro da gente e vai querer dominar tudo em volta.
sábado, 21 de março de 2015
Sustentabilidade, desenvolvimento humano e diversidade
Sustentabilidade, desenvolvimento humano e diversidade
Reinaldo Bulgarelli
Txai Consultoria e Educação
Esta semana foi cheia de atividades das mais variadas e para as quais eu preparo muito material. Gosto de PowerPoints! Nem todo material eu posso compartilhar porque são produzidos para clientes.
Outros, são para eventos abertos e adoro isso porque posso publicar minhas produções, descobertas, dúvidas, opiniões, desejos, pelo menos aquilo que foi parar no PowerPoint.
Por meio do SlideShare, compartilho aqui duas apresentações que realizei no mesmo dia, 18 de março (dia cheio de diversões!). Uma delas foi para o primeiro Clube Abraps do ano, logo cedo. A Abraps é a Associação Brasileira dos Profissionais da Sustentabilidade. Não apresentei os slides porque o formato é de um gostoso pape-papo no café da manhã, mas aqui estão as reflexões que fiz sobre o que há de novo no tema da valorização da diversidade em relação às práticas de sustentabilidade e responsabilidade social empresarial. Falo das novidades e também dos desafios para o ano de 2015.
Depois, à noite, estive na Universidade Metodista para atender a um convite muito especial do Curso de Direito: uma aula magna com o tema "A Condição do Vulnerável na Sociedade Contemporânea". Falei sobre desenvolvimento humano, o Relatório de Desenvolvimento Humano do PNUD que tratou do tema (2014) e, claro, como o tema sugere, falei de direitos humanos e valorização da diversidade.
Seguem aqui os links para o site do Slideshare.
http://pt.slideshare.net/reinaldotxai/sustentabilidade-e-diversidade
http://pt.slideshare.net/reinaldotxai/aula-metodista-reinaldo-bulgarelli-18mar15-ap
Reinaldo Bulgarelli
Txai Consultoria e Educação
Esta semana foi cheia de atividades das mais variadas e para as quais eu preparo muito material. Gosto de PowerPoints! Nem todo material eu posso compartilhar porque são produzidos para clientes.
Outros, são para eventos abertos e adoro isso porque posso publicar minhas produções, descobertas, dúvidas, opiniões, desejos, pelo menos aquilo que foi parar no PowerPoint.
Por meio do SlideShare, compartilho aqui duas apresentações que realizei no mesmo dia, 18 de março (dia cheio de diversões!). Uma delas foi para o primeiro Clube Abraps do ano, logo cedo. A Abraps é a Associação Brasileira dos Profissionais da Sustentabilidade. Não apresentei os slides porque o formato é de um gostoso pape-papo no café da manhã, mas aqui estão as reflexões que fiz sobre o que há de novo no tema da valorização da diversidade em relação às práticas de sustentabilidade e responsabilidade social empresarial. Falo das novidades e também dos desafios para o ano de 2015.
Depois, à noite, estive na Universidade Metodista para atender a um convite muito especial do Curso de Direito: uma aula magna com o tema "A Condição do Vulnerável na Sociedade Contemporânea". Falei sobre desenvolvimento humano, o Relatório de Desenvolvimento Humano do PNUD que tratou do tema (2014) e, claro, como o tema sugere, falei de direitos humanos e valorização da diversidade.
Seguem aqui os links para o site do Slideshare.
http://pt.slideshare.net/reinaldotxai/sustentabilidade-e-diversidade
http://pt.slideshare.net/reinaldotxai/aula-metodista-reinaldo-bulgarelli-18mar15-ap
domingo, 8 de março de 2015
A Operária Adriana e o Dia da Mulher na empresa dos homens
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| Meninos trabalhando |
A operária Adriana e o dia da mulher na empresa dos homens
Reinaldo Bulgarelli, Txai Consultoria e Educação08 de março de 2015
Adriana foi convidada para o evento do Dia da Mulher. Ficou
surpresa porque ela trabalhava na fábrica e essas celebrações eram na sede da
empresa. Ainda maravilhada com a novidade, perguntou ao seu colega José Antônio
se não iria participar. Ele disse que o evento era apenas para as mulheres,
conforme estava no convite. Ela leu novamente e não falava nada sobre isso, mas
ele retrucou mostrando o convite cor-de-rosa que só falava em mulheres. Na
porta do ônibus fretado distribuíam rosas vermelhas. Ela concordou com José
Antônio.
Lá chegando, mais mimos para as mulheres. Um fornecedor oferecia
creme depilatório. O cartão cor-de-rosa dizia algo sobre mulheres e as
barreiras que os pelos ofereciam à sua felicidade. Adriana logo lembrou-se de
José Antônio. Olhou à sua volta para constatar que havia apenas mulheres no
evento, tanto da sede como de todas as outras fábricas da empresa.
Sentadas no chique auditório, todo enfeitado com frases de
mulheres famosas, impressas em papel cor-de-rosa e ilustrados com flores, ouviram
o presidente da empresa fazer a abertura do evento:
- Estamos aqui para celebrar o que há de mais belo,
perfumado e encantador nesta empresa: as mulheres. A beleza de vocês torna
nosso dia melhor. Vocês são o enfeite desta empresa!
Ele se retirou em seguida dizendo que iria para uma importante
reunião com os executivos da empresa na qual decidiriam questões essenciais
para o futuro dos negócios. Adriana cochichou com sua colega:
- Pensei que estivéssemos trabalhando, mas somos só enfeite.
Até o evento é um enfeite porque o homem tem coisas mais importantes pra
fazer...
Depois, um grupo de mulheres, todas muito bem vestidas,
saltos altos, cheias de joias e cabelos impecáveis, subiu ao palco e uma a uma
foi se apresentando. A diretora de RH da empresa festejou o fato da empresa
possuir agora três por cento de mulheres depois de cinco anos de esforços. Haviam
criado um grupo de mulheres no ano passado e disse também da felicidade com
este primeiro evento da empresa no Brasil. Deixou escapar, contudo, que
lamentava não estar na reunião que o presidente agendou bem no horário do
evento. Ela era a única executiva no grupo de quinze homens. Adriana pensou que
a situação era igual à que vivia na fábrica. Era a única mulher em sua área. Havia
apenas trinta e seis mulheres operárias em um grupo de mil e duzentos operários.
Foi a vez de uma das advogadas do jurídico da empresa fazer
a apresentação sobre o grupo de mulheres. Ela explicou que o grupo pensava em
como aumentar o número de mulheres nos cargos executivos. Disse que haviam
criado outro grupo para pensar especificamente na questão da maternidade e
carreira.
Sobre este assunto, convidaram uma executiva de outra empresa
para contar como foi conciliar a carreira com o fato de ser mãe de um filho
que, aliás, estudou em Harvard e hoje é presidente de uma grande multinacional.
Ela disse que sem a babá que a acompanhou a vida toda não teria conseguido
subir na carreira.
Quando já estavam para encerrar o evento, depois de várias
falas sobre como era maravilhoso ser mulher e mãe, abriram para dois minutos de
perguntas da plateia.
Adriana levantou-se imediatamente e, quando viu, o microfone
já estava em sua mão.
- Eu queria agradecer pelo evento tão bonito que tivemos.
(aplausos) Mas, os homens não deveriam estar aqui para escutar tudo isso? (mais
aplausos). Meu marido, por exemplo, até me ajuda em casa, mas eu não gostaria que
ele me ajudasse e sim que dividisse comigo as tarefas. Lá em casa, ele é o enfeite
quando se trata de lavar louça e aqui na empresa eu descobri hoje que eu sou o
enfeite. (silêncio total)
Alguém da organização do evento grudou ao lado de Adriana e
segurou o microfone para ela lembrando que deveria ser breve.
- Vou ser breve, mas queria dizer que vocês bem que poderiam
pensar também nas mulheres da fábrica. Olha esse uniforme! Um calor terrível e
o uniforme é o mesmo em todas as cidades do norte ao sul do país. E esse modelo?
Quem desenhou era homem e só pensou nos homens. Tudo bem que eles são maioria,
mas é para continuar sendo assim que bolam essas coisas? Queria dizer também
que acho lindo vocês pensarem numa sala de manicure aqui na sede, mas na minha
fábrica não tem banheiro para mulheres. Nós andamos muito para ir até a área
administrativa e o meu chefe sempre faz piadinhas sobre como mulheres são menos
produtivas. Mais uma coisa para eu me sentir culpada na vida. Lá em casa eu me
sinto culpada por não dar conta das crianças e da casa – e olha que eu não
tenho empregada doméstica, como vocês! Lá o problema é que meu marido não
divide as tarefas de casa comigo e aqui o problema é que não pensaram e
continuam não pensando nas mulheres que trabalham na empresa. Muito boas as dicas
que vocês deram sobre como lidar com a culpa, mas eu queria muito aprender
sobre como gerar culpa nos homens. Ninguém pergunta para eles sobre como é
conciliar a carreira com a paternidade. Adorei essas dicas sobre como ser mais
assertiva, objetiva e só chorar escondida no fundo do banheiro. O banheiro é
tão longe que nem sei se conseguiria segurar o choro quando gritam comigo, mas
e as dicas para os homens serem mais respeitosos com todos?
Desligaram o microfone para encerrar o evento, mas as
mulheres da plateia estavam gostando e pediram para a Adriana continuar.
- Como a empresa vai
aumentar o número de mulheres em cargos de liderança aqui na sede se há tão
poucas mulheres nas fábricas? Sei que não temos plano de carreira na fábrica,
mas os problemas são comuns porque tudo foi pensado por homens e para homens.
Não seria o caso de pensar a empresa toda quando falamos de mulheres? Vocês têm
uma empregada doméstica, que deve ser negra, como eu, para ajudar nas
atividades da casa. Nós, operárias, não temos empregadas, mas nossas mães ou
até nossos próprios filhos cuidando da casa enquanto trabalhamos. Não é para
pensar em todas as mulheres e seus desafios? Para nós também seria ótimo termos
seis meses de licença maternidade, tanto quanto seria para vocês aqui na sede.
Será que a empresa vai ter um prejuízo imenso por ter mulheres ou por não ter
mulheres? E tudo gira só em torno da maternidade?
Alguém se levantou no palco para agradecer e cortar, mas
Adriana retomou o microfone.
- Eu quero fazer parte deste grupo e ele não deveria pensar
apenas em carreira, mas em como, em tudo, aqui poderia ser um bom lugar para homens
e mulheres trabalharem. Isso de subir na carreira eu penso que é consequência da
empresa ser mais aberta para homens e mulheres, a nossas questões específicas e
os benefícios que traz para todos. Ou não tem benefícios? Também vejo o jeito
dos homens lidarem com as máquinas e detesto quando me elogiam por ser mais
delicada. Delicadas são as máquinas de hoje e esse elogio é uma ofensa para os
homens. Até quando eles vão repetir que são maioria porque o trabalho exige
força, como se fossem apenas músculos sem cérebro e sentimento? Nós, que somos
mães, queremos embrutecer nossos meninos para sobreviverem neste mundo?
Na saída do evento, Adriana foi cumprimentada por muitas
mulheres e a diretora de RH a convidou para fazer parte do grupo. Outras
mulheres torceram o nariz. Uma colega chegou a dizer que ela era feminista e
que não sabia seu lugar. Todas ganharam um bombom com um lindo laço cor-de-rosa
e uma propaganda de outro fornecedor. O cartãozinho rosa dizia que a família
era a coisa mais importante do mundo e que a mulher era o centro do universo.
quinta-feira, 20 de novembro de 2014
Diversos Somos Todos: enfrentando o padrão dominante
Diversos Somos Todos: Enfrentando o Padrão
Dominante
Reinaldo Bulgarelli
Txai Consultoria e Educação
18 de novembro de 2014
Minha apresentação no evento INOVAR-SE
- http://www.inovarse.org/ - trata de
direitos humanos e valorização da diversidade, abordando:
1. O conceito de valorização da diversidade;
2. Os desafios para o ambiente empresarial e para a
sociedade;
3. Boas práticas na promoção e gestão da diversidade;
4. Perspectivas da valorização da diversidade no
Brasil.
O título da minha fala é “Diversos
Somos Todos: Enfrentando o Padrão Dominante”. Vamos por partes. Para falar do
conceito de diversidade, é preciso afirmar constantemente que cada um de nós é
um ser único e, por isso mesmo, muito especial. Cada um de nós é uma das
soluções que a vida encontrou para se fazer presente dentre as muitas e muitas
composições possíveis.
Somos todos únicos e se tem algo que
nos caracteriza a todos é a singularidade. Nossa singularidade, o que nos torna
únicos, é resultado de um conjunto de características ou, usando um nome mais técnico,
um conjunto de marcadores identitários.
Quando a Declaração Universal dos
Direitos Humanos afirma que “todas as pessoas nascem livres e iguais em
dignidade e direitos”, está afirmando também que nossas características não
devem ser transformadas em motivo para desigualdades, injustiças, desvantagens,
vulnerabilidade, exclusão ou violências de qualquer tipo.
Todas as pessoas, em suas
singularidades, devem “gozar os direitos e as liberdades estabelecidos nesta
Declaração sem distinção de qualquer espécie, seja de raça, cor, sexo, língua,
religião, opinião política ou de outra natureza, origem nacional ou social,
riqueza, nascimento, ou qualquer outra condição.”
A igualdade na condição de gente não
significa, de forma alguma, o extermínio de nossas características porque ela é
um dado da realidade e também é fonte de riqueza, condição para se falar em
desenvolvimento e, sobretudo, em desenvolvimento sustentável.
Eu senti que era importante dizer que
diversos somos todos porque algumas pessoas nas empresas e outras organizações
tratavam a diversidade como um atributo de alguns de nós, ou seja, não se
percebiam como parte da diversidade humana. Isso impacta negativa a formulação
e gestão de programas de valorização da diversidade ou dirigidos a determinados
temas ou a segmentos da população.
Em geral, essas pessoas se tornavam
“invisíveis” à diversidade humana porque se pareciam com um padrão idealizado,
que eu chamo de “padrão dominante”. Esse padrão dominante diz que é normal,
belo, forte, confiável, inteligente, interessante, pronto para nos governar,
que merece ser ouvido, respeitado e valorizado, quem é homem, branco, sem
deficiência, adulto, heterossexual, rico, alto, saudável, católico, da região
desenvolvida do país, entre tantas outras características.
O padrão dominante é uma ideologia e
com base nela nos dividimos, nos separamos, criamos como que uma hierarquia
para dizer que uns são mais humanos que outros. Essa ideologia é uma forma de
ver o mundo e atende a interesses, buscando que os considerados como padrão
dominante tenham privilégios em relação aos demais que não se parecem com ele.
A valorização da diversidade é um
movimento, uma postura individual e institucional que enfrenta o padrão
dominante para dizer que quem se parece com ele merece todo respeito, assim
como todas as demais possibilidades de ser humano, com suas características das
mais variadas.
Valorizar a diversidade na empresa é
fazer esse movimento de remar contra a maré ao dizer duas coisas: um não à
discriminação e um sim à diversidade como fonte de riqueza. Significa até mesmo
lembrar a todos e todas as promessas feitas pelo mundo empresarial moderno,
regido por uma visão, missão e valores escolhidos para tratar da forma como a
organização irá realizar sua missão e obter resultados.
Significa lembrar, por exemplo, que o
mérito deveria ser o critério para constituir equipes e não se basear em características
como ser homem ou mulher, por exemplo. Na prática das empresas, ainda temos inscrito
no perfil da vaga que ela deve ser ocupada por um homem porque ali se exige
força. Se exige força, o foco deve estar na força e não no sexo porque há
homens fracos e mulheres fortes.
Mas, ao dizer sim para a diversidade
como fonte de riqueza, de enriquecimento do olhar da empresa para realizar suas
atividades num mundo complexo, desafiador, em rápido e profundo processo de
mudança, a diversidade passa também a ser critério para a composição de uma
equipe de trabalho. Mais do que contratar pessoas com base no mérito
individual, o que é importante, a empresa, como qualquer organização, está
buscando também construir a competência organizacional para lidar com o mundo
no qual quer ser bem-sucedida.
Desafios para as empresas na
valorização da diversidade? O principal deles é enfrentar o padrão dominante e
as ideologias da discriminação que dele resultam – o machismo, o racismo, a
homofobia e todas as formas de violência que afastam a empresa de sua própria
declaração de visão, missão e valores.
Há empresas que acham que valorizar a
diversidade é apenas monitorar a sua demografia interna. É uma parte da tarefa.
O mais importante é a construção de um ambiente plural, aberto, inclusivo e
acolhedor da diversidade humana. Portanto, ambiente que valoriza pessoas, a
vida, que tem conexão com a realidade onde opera os negócios, com as
perspectivas atuais e as tendências de futuro.
Isso é essencial para uma organização
ser criativa e inovadora, atributos cada vez mais valorizados e necessários. Isso
implica em trabalhar a cultura organizacional e não apenas a demografia
interna. Uma demografia que atenda a princípios básicos como a não
discriminação, demandas da sociedade e suas normas, se complementa com uma gestão
de pessoas que trabalhe essa expressão da pluralidade numa cultura de respeito
e inclusão.
O conjunto de boas práticas empresariais
no campo da valorização da diversidade tem duas características essenciais:
(a) O enfrentamento do padrão dominante, mais do que apenas a inclusão
de alguns segmentos ausentes ou em situação de desvantagem na organização. Isso
implica rever e aprimorar estruturas físicas, pensamentos, posturas, processos,
sistemas, formas de comunicação, com impactos também no seu fazer, nos produtos,
serviços, atendimento e relacionamento com seus diferentes públicos ou
stakeholders. Se tudo foi moldado pelo padrão dominante, das máquinas à
comunicação, é preciso que a pluralidade esteja não apenas nas características
da demografia interna, mas no jeito de ser, de fazer e de se relacionar da
organização.
(b) A participação das pessoas, mais do que projetos mirabolantes e bem
feitos no meu escritório de consultoria, por exemplo. É essencial ouvir as
pessoas, promover diálogos, promover a participação efetiva de todos no
enfrentamento do padrão dominante e na construção dessa cultura organizacional
aberta à criatividade e inovação na maneira de ser, de fazer e de se relacionar
no mundo.
Não acredito em projeto de valorização
da diversidade que não envolva a criação de um comitê com representantes de
diferentes áreas, uma plataforma a partir da qual as pessoas se capacitam no
tema, colaboram umas com as outras e constroem juntas as soluções para que a
organização faça uma excelente gestão da diversidade que, por sua vez, adicione
efetivo valor a todos. O projeto mais bonito é o mais efetivo. Isso só se
consegue com a estética da participação construindo soluções que tenham total
sintonia com a identidade da organização, sua estratégia de negócio e sua
gente, seus líderes, a cultura a ser fortalecida ou transformada.
Não acredito em projeto de valorização
da diversidade que não crie espaços de diálogo sobre diversidade racial,
sexual, de gênero, etária, religiosa etc. Os grupos, centrados em questões ou
temas de enfrentamento do padrão dominante, se reúnem, nestas empresas para,
sobretudo, ajudar suas organizações a lidar melhor com esses segmentos, temas
ou questões. São mais estratégicos, como gostamos de dizer, quanto mais
efetividade garantem para a organização ao garantir a consideração pelas
singularidades em tudo que se faz.
É essencial que as pessoas sejam
ouvidas e que dialoguem em torno da identidade da organização, o que envolve
todo mundo, não apenas as pessoas daquele segmento ausente ou em situação de
vulnerabilidade e desvantagem dentro da empresa. Se interessa a todos, de
verdade, todos devem se sentir convidados a participar e contribuir.
Falando, por fim, das perspectivas da
valorização da diversidade nas nossas empresas no Brasil, eu posso dizer que o
tema tem futuro se, e somente se...
(a)
Se nós, os profissionais que trabalhamos o tema no ambiente empresarial,
tivermos um profundo carinho pelas nossas empresas que nos faça aprimorar
sempre e mais nosso entendimento do tema e nossas ferramentas de intervenção na
realidade.
É preciso acreditar que as empresas e
seus sujeitos são capazes de transformar a situação atual de discriminação e
segregação em uma cultura de respeito aos direitos humanos e de valorização da
diversidade como fonte de riqueza, de adição de valor, de contribuição para a sustentabilidade
da organização num mundo também sustentável.
(b) Se as empresas desenvolverem cada vez mais a capacidade de trabalhar em
conjunto, criar fóruns e grupos de trabalho em torno de questões essenciais
para a valorização da diversidade no âmbito do respeito e promoção dos direitos
humanos, de práticas socialmente responsáveis e de contribuição para o
desenvolvimento sustentável. A criação do Fórum de Empresas e Direitos LGBT, em
março de 2013, é um exemplo disso. O tema não era fácil para cada empresa
individualmente mas, ao juntarem-se para conversar em rodas envolvendo os
executivos e os profissionais que lideram as ações de diversidade em diferentes
áreas, todos encontraram ali soluções efetivas e uma serenidade necessária para
avançar.
Diversos
somos todos e, portanto, somos todos responsáveis por valorizar e promover
a diversidade. O desafio não está colocado apenas dentro de uma empresa, mas
dentro da nossa mente, na nossa sociedade e exige humildade para reconhecer que
não sabemos tudo; persistência para enfrentar questões milenares; profundidade para
buscar a essência e enfrentar a superficialidade; diálogo para enriquecer a perspectiva
individual e coletiva; coração aberto para acolher a vida em sua diversidade
criadora. Obrigado!
segunda-feira, 17 de novembro de 2014
Gestão e Inclusão da Pessoa com Deficiência
Reinaldo
Bulgarelli, Txai Consultoria e Educação
17 de novembro de 2014
O que significa a legislação de cotas para inclusão do profissional com deficiência no mercado de trabalho
1.
A pessoa com deficiência tem
direito ao trabalho. É isso que afirma a legislação de cotas para que os empregadores
cumpram com o princípio de não discriminação do trabalhador.
2.
A inclusão do profissional
com deficiência significa afirmação do princípio do mérito, que não está sendo
respeitado quando uma característica da pessoa se torna motivo para não ser
contratada.
3.
O mercado de trabalho, do
ponto de vista social, está criando um circulo virtuoso ao promover a inclusão, o
que envolve outros atores como a família da pessoa com deficiência, o sistema
de educação, de transporte, lazer, entre tantos outros.
4.
O investimento em educação
profissional é uma prática comum e rotineira, condição para o desenvolvimento dos
negócios e da sociedade. Portanto, o que há de novo neste processo de inclusão
do profissional com deficiência é um olhar específico para a sua condição de
maneira que também se beneficie do acesso à educação profissionalizante.
A empresa e a inclusão
5.
A empresa se beneficia
porque expressa na prática seu compromisso com valores universais de direitos
humanos e
tudo que isso significa em termos de enfrentamento da discriminação, passando
uma mensagem positiva para toda a sociedade e adicionando valor à sua marca.
6.
A empresa aprimora suas
práticas de gestão ao rever estruturas e processos para acolher a diversidade humana,
abandonando um padrão de normalidade que não tem a ver com competência, mérito,
produtividade e tudo que interessa para os negócios e para a sociedade.
7.
A empresa valoriza sua
marca, aumenta o valor dos seus imóveis, se torna atraente para clientes e para
talentos
que preferem trabalhar num ambiente respeitoso e inclusivo da diversidade
humana. Ao adotar na prática conceitos como inclusão, acessibilidade,
tecnologia assistiva, desenho universal, entre outros, a empresa ganha valor.
O gestor e a inclusão
8.
O gestor de pessoas é gestor
da diversidade humana porque as pessoas são caracterizadas pela pluralidade e não pela
uniformidade.
9.
Gestores inclusivos da
diversidade humana aprimoram suas práticas de gestão ao manter foco no mérito, na
produtividade e nos resultados, considerando a realidade da vida e trabalhando
com aquilo de melhor que as pessoas têm a oferecer.
10.
A inclusão é um processo, envolve diálogo, interação e
compromisso de todos porque é multidirecional. Não é um gesto apenas do gestor
na direção do profissional com deficiência, mas de todos em direção a todos.
11.
A inclusão envolve
cooperação intensa entre todos. Reforça, portanto, a colaboração necessária para que a
empresa alcance seus resultados.
12.
Gestores inclusivos cuidam
de saúde e segurança considerando a diversidade humana, o que contribui para
elevar os padrões da empresa.
13.
Gestores inclusivos se
capacitam
não apenas estudando, mas na vivência cotidiana da inclusão do profissional com
deficiência.
14.
Gestores inclusivos rejeitam
“ideias paralisantes” e trocam a máxima do “só é possível incluir quando tudo estiver
perfeito” por “tudo melhora conforme incluímos os profissionais com
deficiência”.
15.
Gestores inclusivos se
desenvolvem profissionalmente para trabalhar com os desafios do século XXI e são
interessantes para o mercado de trabalho moderno.
domingo, 26 de outubro de 2014
Antes de raiar o dia
Antes de raiar o dia
Reinaldo Bulgarelli
26 de outubro de 2014
Aqui na rua acontece de tudo. Tem um bar que reúne os jovens
e os não tão jovens. Eles chegam ao comecinho da noite e ficam até de tarde do dia seguinte. O
cheiro de cerveja, xixi, maconha e desespero vão longe.
A moça do escritório em frente levou um soco no rosto de um
maluco desses. Doeu, machucou e ela, briguenta, levou o sujeito para a
delegacia, apesar do protesto dos demais. No dia do batizado do meu neto, ele estava
todo arrumadinho e a família desfilando com muita pompa de casa até a igreja. Vimos
uma moça tirar a roupa para fazer xixi no meio da calçada, bêbada e jogando
pragas. A moça pelada é assunto para o resto da vida.
Assim é o bar do lado de casa. Brigas e facadas, polícia,
propina e muita droga é o que tem neste lugar, retrato de muitos cantos do
nosso país. Nunca vi nenhum pastor passar por ali para converter os infiéis da Rua
Augusta. Se algum tentou, não deve ter sido fácil. Fácil mesmo é acolher um
desses jovens quando quer sair do alcoolismo e das drogas, dos dias sem nada
para fazer, a não ser ficar malucando na porta do bar.
Depoimentos emocionantes na igreja e um palco para aqueles
que mudaram de vida, que falam do passado com dor, lamentando o que foram e fizeram.
É isso que estou chamando de fácil. E quem os amava e acolhia enquanto estavam
ali mergulhados na cerveja e no xixi?
Lembrei-me dos anos e anos em que passei trabalhando com
crianças e jovens em situação de rua no centro de São Paulo. Lembrei-me dos
educadores sociais de rua que estão pelo Brasil a fora fazendo este trabalho de
estar com aqueles que ainda não contam sua história no tempo passado.
Estou agora engajado em um projeto para ampliar a empregabilidade
de ex-detentos. São pessoas que cumpriram penas no sistema prisional e que não
encontram oportunidade no mercado formal de trabalho. O que eu disse ser fácil,
não é tão fácil assim. Mesmo para estes que estão dizendo que não querem voltar
para o mesmo lugar, que querem uma chance para se reinventar, as portas do
mercado de trabalho oferecem restrições: queremos saber dos antecedentes
criminais. Deveriam prioriza-los, mas, ao contrário, fecham as portas. Temos
muito que fazer para mudar isso.
Mas, quem é que se dedica a visitar os presos,
principalmente aqueles que ainda não demonstraram nenhum interesse em mudar de vida
e ingressar no mercado de trabalho? Quem é que os visitam e trabalha para
ampliar suas possibilidades e escolhas, com ou sem moralismo, trabalhando com
desenvolvimento humano? Quem é que lida com “essa gente” dizendo que têm valor,
como os jovens aqui do bar vizinho, mesmo enquanto ainda não se bandearam para
o lado definido como decente?
Difícil mesmo é ver valor naquele sujeito que deu o soco na
moça do escritório, a outra doidona que fazia xixi no meio da rua e o outro que
esfaqueou o colega por um motivo qualquer. Na minha experiência com as crianças
e jovens em situação de rua, aprendi que isso faz toda diferença. Se a pessoa quer
ficar ali, num tempo que pode ser maior que a minha vida ou até o limite da
vida dela, mesmo assim a gratuidade da presença passa mensagens poderosas.
É o olhar, o gesto e essa presença dizendo algo essencial
para qualquer escolha que se possa fazer nesta vida: você tem valor, dignidade
e merece respeito em qualquer circunstância. Se quiser mudar, se não quiser,
mesmo assim, antes e acima de tudo, você tem valor. Era isso que dizíamos, às
vezes sem dizer nada, para aqueles que estavam na rua, nem sempre só pobres,
nem sempre só violentos ou drogados. O
que havia de comum era a falta de perspectiva, um projeto de vida, um propósito
de verdade que fosse além da sobrevivência no dia presente.
Na falta de perspectiva, faz toda diferença ter alguém
sinalizando que você tem valor hoje, agora, neste instante. A perspectiva é
construída numa mão estendida, numa oportunidade e numa escolha que acontece
dentro da gente.
O que vem antes? Não tem antes e nem depois. É tudo junto e
ao mesmo tempo porque estamos falando de gente. Alguns se reconstroem por
dentro a partir da vivência da oportunidade, incluindo erros e acertos, idas e
vindas. Alguns se reinventam primeiro no silêncio de uma escolha que acontece
dentro. Aí, depois disso, é que passam a buscar as oportunidades e as condições
de seu desenvolvimento.
Uma sociedade que lida apenas (e muito mal) com quem foi
capaz de reinventar-se, por motivos religiosos ou outro qualquer, não lida direito
com nada que seja significativo ou sustentável. O bom mesmo é reconhecer uma
pessoa onde tudo em volta e tudo dentro diz que ali está uma besta sem qualquer
humanidade. Minhas homenagens aos que visitam os presos, aos educadores sociais
de rua, aos que se dedicam a estar naquele lugar que cheira a xixi e naquele momento
turbulento do dia que ainda não raiou.
sexta-feira, 3 de outubro de 2014
Os avanços na temática LGBT no ambiente empresarial
Reinaldo Bulgarelli
03 de outubro de 2014
A Txai Consultoria e Educação (eu, Bruna Douek e Beto de Jesus) foi responsável pela
elaboração do Manual da ONU sobre direitos LGBT no mundo do trabalho, lançado
no último dia 30 de setembro.
Nos últimos dois anos, demos
prioridade aqui na Txai para a temática dos direitos LGBT e estamos colhendo os
resultados destes esforços.
Temos duas publicações para o meio empresarial no tema (do
Instituto Ethos e da ONU); temos um Fórum (Fórum de Empresas e Direitos LGBT,
hoje com mais de 80 grandes empresas e um Comitê Gestor com 11 empresas), uma agenda de trabalho (10 Compromissos
da Empresa com os Direitos LGBT, com indicativos de ação e indicadores de
profundidade); marcador de livro com 10 Compromissos (amplamente divulgado nas reuniões e atividades do Fórum); um vídeo com
duas versões (Instituto Ethos, disponível no espaço deles no Youtube); cartazes
para sensibilização no tema (ONU); a Carta de Adesão ao Fórum e aos 10
Compromissos (em discussão no Comitê Gestor do Fórum para assinatura em 10 de
dezembro próximo); vários cases empresariais demonstrando amadurecimento e boas
práticas nesta questão; ampla cobertura da imprensa para essas ações.
O meio empresarial avançou significativamente na questão da
orientação sexual e identidade de gênero, ganhando também a responsabilidade
ainda maior de ajudar a sociedade toda a também realizar avanços no que diz
respeito à igualdade de oportunidades e de tratamento; enfrentamento firme e
efetivo da homo-lesbo-transfobia; promoção de ações afirmativas em várias áreas
ou relacionamentos da empresa, priorizando travestis e transexuais; promoção de
uma cultura de respeito aos direitos humanos LGBT, o que envolve organizações
mais inclusivas e engajadas.
Muito orgulho de mais uma atividade da Txai que está
contribuindo em temas de difícil abordagem no meio empresarial e na sociedade em
geral.
Segue abaixo link para matéria no site da ONU e para a
publicação lançada no último dia 30/09/2014.
http://www.onu.org.br/onu-lanca-manual-sobre-direitos-lgbt-no-mundo-do-trabalho/
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